BOA NOITE, MAMÃE



Boa Noite, Mamãe subverte alguns clássicos do terror num filme extremamente perturbador, fugindo dos sustos fáceis.


Existem elementos no terror que já são clichês enormes e que devem ser descartados ou subvertidos. E os austríacos Veronika Franz e Severin Fiala escolheram sabiamente a segunda opção. Em Boa Noite, Mamãe há uma plantação – quase uma floresta –, uma casa isolada, lugares escuros, crianças perturbadas e o conhecido possuído. Que serve, porém, apenas de referência para situar o espectador. Todos esses elementos são colocados de modo pouco usual, com seu terror aberto e à luz do dia, com exceção de seu desfecho, indo no caminho inverso do susto fácil de aumentar o som da trilha sonora. É uma maneira diferente de fazer terror, mais sutil e não menos perturbador.


O cenário que Elias (Schwarz) e seu irmão Lukas (Schwarz) vivem é, no mínimo, curioso. Sozinhos, enquanto a Mãe (Susanne Wuest) está se recuperando de uma operação plástica, eles se aventuram por meio da plantação de milho, adentrando em ambientes escuros e lugares abertos.

É interessante que o figurino dos dois seja tão simples, mas que converse tanto com o espectador. Durante a projeção, pode-se perceber que Lukas usa roupas mais escuras que o irmão e que ele dá a coragem para Elias, como podemos ver quando ele é empurrado gentilmente para dentro de uma galeria escura. Pode parecer um pouco confuso essa relação de simbiose entre os dois, mas elas fazem todo o sentido.

Se existe um porém, longe de ser um demérito, é que a dupla de diretores/roteiristas dá dicas muito claras da situação dos irmãos. Ainda que seja possível achar alguém que não capte a ideia, em geral, a relação da mãe com seus filhos não deixa espaço para dúvidas. No entanto, Franz e Fiala continuam colocando vários elementos para manter outra dúvida que vem pela duplicidade de certos objetos, mas não demora para ser sanada. Aos poucos, com conversas e outros elementos na mise-en-scène, vamos montando a menor parte do quebra cabeça. Alguns mais óbvios que outros, porém não menos interessantes.


O filme entra numa espiral de loucura e desespero que transforma a experiência no fim segundo ato e todo o terceiro em algo torturante. Signos se misturam com situações reais e que vão tomar de assalto o espectador de maneiras diferentes. A dupla responsável pelo filme abraça vários medos, para assim tocar de modo perturbador cada um de nós. Se por um lado a violência gráfica não atinja a todos, talvez o modo que Elias e Lukas percebam a podridão daquela que eles acreditam não ser a mãe deles te faça encolher na cadeira. Aliás, é uma experiência interessante assistir ao filme com só algumas pessoas e notar como cada uma reage.

Pode ser uma brincadeira interessante caçar todas as dicas que o filme dá ao longo de seus 100 minutos – com exceção da relação entre Elias e Lukas, elas não são dadas gratuitamente. Algumas são mais rápidas, como a sombra de um porta-retratos, outras mais subconscientes, como a já citada diferença nos figurinos dos irmãos, mas todas servem para o agoniante retrato final. E enquanto o filme se aproxima do desfecho, vai parecendo mais longo, mais difícil de ser assistido, o que não tem nada a ver com ritmo ou algum problema de montagem. Nós sofremos com a mãe, com a dúvida de Elias e com a pressão vinda de Lukas.


Uma das coisas mais difíceis de serem combatidas é uma ideia. Como lutar contra algo quando, ali dentro, alguém acredita ser verdade? Aquela pequena voz está presente em todos os momentos de Boa Noite, Mamãe, deturpando desde grandes clássicos infantis como o Grilo Falante daquele boneco que queria ser um menino de verdade, até por transmutar não apenas o terror, mas outros elementos comuns e até queridos para nós. A produção encontra um equilíbrio entre os clássicos e os mais recentes slashers onde o que importa é ver membros decepados e sangue escorrendo da tela. E é o suficiente para chamar a atenção: um terror de terrores ao invés do susto pronto e fácil.


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