FLORENCE: Quem é essa mulher? (Florence Foster Jenkins)


Florence, quem desafina seus males gargalham

É curioso notar como a venda do gênero é bem planejada a fim de atrair um determinado público. Comédia não seria a categoria mais apropriada para definir Florence Jenkins. O riso, aqui, na maioria das vezes, soa como um bullying enrustido da plateia para com a ingenuidade descompassada (e bizarra) de sua protagonista – e parece ter sido esse um dos objetivos do roteiro escrito pelo estreante em longas, Nicholas Martin.


Somos imergidos nos anos quarenta para acompanhar a história daquela socialite desafinada e sem talento para a ópera, mas profunda e diva para si mesma. A história da real Florence Jenkins (Florence: Quem É Essa Mulher?) parece uma dessas lendas urbanas, mas ela existiu de verdade, e seus discos estão em canais do YouTube para serem apreciados, com muita disposição auditiva!


É uma pena que toda essa profundidade sugerida pelo roteiro seja superficial, reduzindo a caracterização e construção de Meryl Streep a uma sequência de trejeitos fidedignos (ainda que se perceba a razão da fragilidade de Florence, sinalizada pelo uso da peruca logo nos primeiros minutos do filme). É neste aspecto que o drama fala mais alto, razão pela qual defendo mais a desafinação pelo choro do que pelo riso. Meryl Streep tem sido (já por um longo tempo) o bilhete premiado dos produtores de filmes biográficos, daquelas barras de chocolate douradas aguardando o prêmio chegar.

Acompanhando a receita premium de incluir o glamour dos anos 40 à sua narrativa, Steaphen Frears (A Rainha, Ligações Perigosas) consegue incluir toda a nostalgia noir da época com planos visuais bem construídos, aliada a uma fotografia plástica coesa, assinada por Danny Cohen (A Garota Dinamarquesa). Observem como Cohen valoriza os planos mais abertos quando Florence está em público e mais fechados quando está sozinha, o que cria um paralelo interessante para entendermos como ela se enxerga e como se sente vista pelos outros.


Hugh Grant consegue desenvolver o companheiro St. Clair Bayfield com maturidade, sem ser “engolido” pela bruxaria cênica de Streep, que na maioria das vezes rouba a cena. Os outros personagens coadjuvantes são unidimensionais, não havendo nenhum arco dramático que envolva o espectador.


O grande acerto para esta aposta rumo à Academia é sem dúvida a escolha de sua protagonista. Não há como comparar esta Florence com a Marguerite francesa, do diretor Xavier Giannoli. Os franceses são mais profundos por natureza, e também pouco esperançosos.


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