OS CAMPOS VOLTARÃO (Torneranno i Prati)


Como lembrar as sangrentas batalhas que marcaram a Primeira Guerra Mundial, agora que se rememora o centenário daquela carnificina? Para o veterano diretor italiano Ermanno Olmi não foi difícil. Seu pai lutou na Primeira Guerra e lhe contava muitas histórias que viveu no front. Essas histórias deixaram marcas na juventude de Olmi e solidificaram nele um espírito humanista, antibélico.


A melhor forma de abordar o absurdo dessa guerra no cinema, para um diretor cunhado pela tradição neorrealista, era, naturalmente, recorrer a essas narrativas paternas, trazendo o cotidiano infernal do front de batalha em situações diversas, concentradas num único set e num único dia. Valeu-se o tempo todo dessas histórias reais, vividas ou presenciadas, narradas pelo pai.


Estamos em 1917, acompanhando um grupo de soldados italianos no front de batalha, em Altipiano, nordeste da Itália. Eles estão em num bunker, cercados por nevascas e pelo exército austríaco, que procura dominá-los. Mas, no início do filme, há espaço para apreciar a beleza dos campos cobertos de neve e até a beleza do canto de um dos soldados italianos que, com sua música, chega até os contendores da guerra, que o aplaudem e pedem mais.

O decorrer da experiência trará imagens, situações e sentimentos muito menos edificantes: o medo, a saudade da família, a fome, o convívio com os ratos, as doenças, os bombardeios, exibidos com minucioso realismo e despojamento, em longos planos-sequência não deixam margem a dúvida sobre a insensatez das guerras. E o caráter infra-humano, anti-humano, que é sua marca registrada.


Em econômicos 80 minutos, o filme diz tudo o que tem a dizer, sem pregar absolutamente nada. É pura observação, informação visual, reflexão sobre as pequenas ações e comportamentos de vida na guerra. Para isso, se vale de uma fotografia deslumbrante e de um cenário que cria um ambiente claustrofóbico e opressivo, sem que haja dominadores ou opressores. É a própria guerra que os oprime.


Um filme espetacular, de inegável beleza artística. Eu diria que é a terceira obra-prima desse diretor, de quem se conhece pouca coisa, mas o que aqui chegou é primoroso. A Árvore dos Tamancos, de 1978, ganhou a Palma de Ouro em Cannes, com todos os méritos. A Lenda do Santo Beberrão, de 1988, levou o Leão de Ouro em Veneza e é outra maravilha. Com Os Campos Voltarão, Ermanno Olmi apenas reforça e reafirma essa capacidade de produzir coisas deslumbrantes sem qualquer afetação ou ornamentação.



Para quem nasceu em 1931 e começou a dirigir desde o final dos anos 1950, Olmi até que fez pouco cinema, mas sua contribuição para ele é admirável e não poderá ser esquecida. E que fôlego teve para realizar esse filme tão sofisticado na sua simplicidade, aos 83 anos de idade. Muito bonito.

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