DICAS DE FILMES DA 40ª MOSTRA


Quem pretende acompanhar a 40ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo terá de fazer uma programação do que mais lhe interessa ver, em dias, horários e salas de cinema mais acessíveis. A dificuldade é grande, porque a oferta é enorme: 322 filmes em inúmeros cinemas. Nesse sentido, alguma indicação inicial pode ser útil, mesmo sabendo que escolhas aleatórias também possam se revelar muito interessantes, embora envolvam riscos. Dos filmes que já pude ver da Mostra, aí vão algumas dicas.


O REI DOS BELGAS – um filme sobre a concepção de um documentário, que vai se desenrolando à nossa frente, partindo de um registro “chapa branca” da viagem do rei belga à Turquia, que se transforma numa odisseia. Nela, o monarca se descobrirá e ao seu mundo próximo. Em tom leve, de comédia, com ótimos diálogos e uma trama inteligente, o filme do diretor belga Peter Brosens é um belo trabalho.


EU, OLGA HEPNAROVÁ – o filme tcheco, dirigido por Petr Kazda e Tomás Weinreb, nos envolve no mundo interno de uma jovem antissocial, agressiva, com comportamento paranóico, que aprofunda suas incapacidades de se conectar com as outras pessoas e se integrar à sociedade, ao não encontrar apoio ou estímulo para isso. Belas sequências, fotografia em preto e branco, enquadramentos e ângulos de filmagem caprichados, em ambientes esfumaçados pelos cigarros, denotam a bruma em que está envolvido o tema.


ELLE – novo filme do diretor Paul Verhoeven, de quem a Mostra também reexibe O Quarto Homem, que vale a pena ver ou rever. Em ELLE, o que está em jogo é uma sexualidade violenta e complexa. Há muitas surpresas e uma estrutura bem montada de suspense. E ainda tem Isabelle Huppert como protagonista.


O filme francês O IGNORANTE, de Paul Vecchiali, trata da complexa questão afetiva que envolve pai e filho, as mulheres à volta do pai, uma obsessão, desejos incompreendidos, incapacidade de se colocar no lugar do outro. Um bom trabalho na temática psicológica das relações.


Da Colômbia vem um excelente filme, LA CIÉNAGA, ENTRE EL MAR Y LA TIERRA, sobre um rapaz acamado, que sofre de uma desordem neurológica, e das paupérrimas condições de vida que limitam suas possibilidades de acesso a um tratamento mais adequado. Mas ele tem o afeto da mãe e de uma amiga de infância e uma história que envolve seu pai e o mar. Narrativa forte e bem desenvolvida, que desemboca numa decisão polêmica. Filme concebido por Manolo Cruz e dirigido por Carlos Del Castillo.


NASCIMIENTO, também da Colômbia, é um bom filme, mas de outro tipo, que pode agradar ou desagradar, dependendo do espectador. Quem aprecia filmes contemplativos, rarefeitos, sem história, imersos numa bela natureza de rio e floresta, vai curtir. O filme também mescla o documental e o encenado, tendo como centro a gravidez em estado avançado e o nascimento. A direção é de Martin Mejía.


Da Argentina, dois documentários que podem ser vistos com prazer. O FUTURO PERFEITO, um doc. encenado, em que uma chinesa sem saber uma palavra do idioma vai viver na Argentina e constrói sua vida lá, a partir das palavras em espanhol que começa a aprender. Chegará a vez do futuro perfeito? Filme de Nele Wohlatz. O outro é AS RUAS, que mostra numa pequena cidade da Patagônia um trabalho escolar, revelando a história, as peculiaridades e os personagens daquela aldeia. E que acabará por nomear suas ruas, democraticamente, homenageando figuras da localidade. O processo de aprender a entrevistar, a construção da pesquisa, o papel da professora e o progresso dos alunos são o que mais interessa no filme. Direção de María Aparicio.


Do Chile, vi um filme que não para em pé. É fragmentação e cenas gratuitas, que não chegam a nada: AS PLANTAS. Esse, claro, não recomendo. Passe ao largo, não vai perder nada.


O filme estadounidense O PLANO DE MAGGIE, de Rebecca Miller, interessa pelo modo como lida com a questão de controlar as coisas. Quem faz planos detalhados, para si e para os outros, pode se complicar e quebrar a cara. Afinal, nada costuma sair como o previsto. Mas há quem não se emende e insista em novos planos e controles.


Indico também dois importantes curtas-metragens, trabalhos de dois grandes diretores: o iraniano Abbas Kiarostami, já falecido, fez ME LEVE PARA CASA, 16 min, e o chinês Jia Zhang-Ke, OS HEDONISTAS, 26 min. Procure incluí-los nos seus programas, se possível. São, para dizer o mínimo, curiosos nas suas concepções: quem deve ser levada para casa é uma bola e a ironia dos hedonistas é um trabalho num parque de diversões surreal, que aparece como esperança derradeira a desempregados.

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