A GLÓRIA E A GRAÇA


Um tema da moda, porém urgente

Sob um título que faz referência aos nomes das protagonistas - e tenta fazer um trocadilho questionável -, A Glória e a Graça chega aos cinemas num momento em que a discussão de seu tema esteja na moda, apesar de sua absoluta urgência.


Na trama, Graça (Sandra Corveloni) uma mulher de meia idade descobre-se com um aneurisma cerebral incurável e precisa de alguém para cuidar de seus dois filhos, Papoula (Sofia Marques) e Moreno (Vicente Demori). Sem contato com os pais se seus filhos e mais ninguém que possa assumir a responsabilidade, decide procurar seu irmão Luiz Carlos, que não vê há quinze anos, após uma briga. Descobre que ele tornou-se a travesti Glória (Carolina Ferraz), uma pessoa solteira, de classe média, poliglota e que é dona de um charmoso restaurante em Santa Teresa - Rio de Janeiro.


Carolina Ferraz consegue construir um personagem real, com camadas. Fugindo de estereótipos, apresenta uma travesti de classe média, bem resolvida, que se acostumou com a solidão e desloca o sentimento maternal para sua amiga transexual Phedra (Carol Marra), que vive com ela e por quem transfere seu carinho e preocupação.


A atriz fez uma sólida preparação para o personagem com o renomado preparador Christian Duuvoort e entrevistando mais de sessenta travestis e transexuais. Ela conta que conheceu o roteiro nove anos atrás, e quando soube que o filme não seria mais realizado, comprou seus direitos para que pudesse produzi-lo. Foi aí que entraram o diretor Flávio Ramos Tambellini, Corveloni, Marra, e demais atores e equipe.

Apesar de bem escrito, o roteiro assinado por Lusa Silvestre (Estômago, 2007) e o estreante Mikael de Albuquerque tropeça ao criar uma cena absolutamente sem sentido para tocar no assunto da agressão física sofrida por travestis e forçar o encontro das irmãs num ambiente estranho a elas.


Também falha ao abordar assuntos importantes, mas não conseguir desenvolvê-los a contento. Temas como violência contra travestis, prostituição, preconceito e relacionamento amoroso são abordados mas perdem-se no filme.

O diretor tem o grande mérito de extrair atuações precisas - principalmente das protagonistas - sem deixar cair na armadilha iminente, e quase irresistível, do melodrama.


A caracterização de Carolina é impecável. Ela está com vinte quilos a mais de seu peso habitual, e ainda colocou próteses nos dentes para ficar com eles menores e gengivas maiores, visando dissociar sua imagem tão conhecida do público. Usou peruca encaracolada e a maquiagem também ajudou a mudar seu rosto, ficando mais inchado. É bastante louvável o desprendimento da atriz - que não se importou em deixar sua famosa beleza de lado - ao apresentar-se deformada e envelhecida.


Sandra Corveloni - vencedora da Palma de Ouro no Festival de Cannes pelo filme Linha de Passe (Walter Salles Jr, 2008) - também não faz por menos ao apresentar uma mulher que dedica a vida a seus filhos, e que, apesar de precisar do irmão travesti, não consegue esconder seus preconceitos. A atriz consegue captar a amargura que é a de uma mãe solteira ter de lidar com a morte a qualquer momento, tendo um filho criança e uma adolescente para criar.


Trata-se de um filme sensível e bem desenvolvido que lembra alguns bons títulos do cinema argentino ou mesmo do espanhol Pedro Almodóvar. Com tema e abordagem incomuns para o cinema nacional, A Glória e a Graça reflete o bom momento que nosso cinema vive e merece ser visto.