CÃES SELVAGENS (Dog Eat Dog)


O intrigar do humano animal

Cães Selvagens é o 20º filme de Paul Schrader como diretor, função exercida pela qual não seja tão conhecido pelo público brasileiro. Seu nome é reconhecido e associado como o roteirista de Taxi Driver (1976), Touro Indomável (Raging Bull, 1980) e A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ, 1988), também Silêncio (2016) e O Lobo de Wall Street (2013) - ambos dirigidos por Martin Scorsese - e Trágica Obsessão (Obsession, 1976) de Brian de Palma. Schrader dirigiu Estranha Sedução (The Comfort of Strangers, 1990), com roteiro assinado pelo importante dramaturgo britânico Harold Pinter (Festa de Aniversário, 1957) e trabalhou com atores conhecidos como Christopher Walken, Nicolas Cage, Willem Dafoe, Lindsay Lohan, James Deen, Jeff Goldblum, Woody Harrelson e Ray Liotta. Intrigante é a sensação estabelecida em seu novo filme.


Os primeiros minutos já estabelecem o tom pelo qual a narrativa se desenvolverá em uma cena agressiva com Mad Dog (Willem Dafoe), uma personagem que nos faz querer segui-lo para tentar compreendê-lo um pouco mais.


O longa percorre a história de Troy (Nicolas Cage), Diesel (Christopher Matthew Cook) e Mad Dog, ex-detentos que tentam se readaptar à sociedade, mas para poderem sobreviver são atraídos por novos delitos. Troy lidera a gangue nas escolhas das atividades a serem feitas, e em uma parceria com El Greco (Schrader) logo são contratados para executarem um plano milionário diferente dos pequenos delitos anteriores, o que proporcionaria uma efetiva mudança de vida. Mas nem tudo sai como o planejado, desencadeando consequências que dão força ao título do filme.

As personagens, apesar de estarem juntas em um plano, trazem uma contradição que parece não fazer dar certo a realização de suas tarefas, um conflito de individualidades caminha de maneira torta nesse objetivo que não surpreende tanto ao dar errado. Troy é o cabeça, com Cage em apenas mais uma atuação de mais um filme, sem grande intensidade e inovação da sua pessoa. Mad Dog um ser impulsivo e agressivo, ataca sem julgamentos, em uma inocência e fragilidade limite - na qual Dafoe mostra sua versatilidade e entrega para os papeis que se propõe a fazer - e Diesel, um brutamontes com sensibilidade para o risco, o que não o faz alguém confiável mesmo se conhecido há anos. O elenco está à mercê da visão do cineasta, na construção de personagens animalescas e individualistas na hora do risco, como os cães reagem ao se sentirem em perigo.


A realização do filme traz um universo com personagens deslocadas perante o sistema ao mostrar suas morais desvirtuadas para sobreviver. Do mergulho na psicologia humana que comete atos não civilizados, instaura-se a reflexão enquanto público. O tema provocativo traz seus pontos interessantes em uma balança com outras questões não tão virtuosas. A fotografia e montagem estabelecem momentos marcantes e inventividade de uma direção arriscada, em outros momentos nada além do óbvio ou de uma solução estética tensa. Há momentos de violência que poderiam ser cômicos como Quentin Tarantino (Os Oito Odiados, 2016) faz, mas se perdem na explicitação de um filme de gênero feito para homens. Outros momentos de surrealismo e tons oníricos mostram o lado de descontração dessa amizade bizarra.


Apesar da violência explícita e truncada, o filme carrega uma metalinguagem ao cinema e ao gênero policial e bandidos. O pensamento recorrente de Troy em ser Humphrey Bogart (Casablanca, 1942) traz a percepção de ser um filme feito para refletirmos sobre o cinema e seu poder de reverberação em cada um. Independente das opiniões e de sua agressividade, é válido assisti-lo para ver a síntese de um diretor em diálogo com sua própria filmografia e os modos de produção de Hollywood.

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