BINGO - o rei das manhãs


Um personagem interpretando um personagem

Frequentemente a década de 80 é retratada no cinema e TV, quase sempre de forma caricata. Em Bingo - o rei das manhãs já vemos, de cara, as famosas cartelas da censura que indicavam a que público a programação era destinada. Isso já nos dá uma medida do bom filme que virá pela frente.


Na trama, Augusto (Vladimir Brichta) é um ator de pornochanchadas que consegue na TV apenas pequenos papeis descartáveis. Ao tentar fazer o teste para uma novela da emissora concorrente à campeã de audiência, descobre a seleção de alguém que dê vida ao palhaço Bingo. Com muita malandragem e ousadia, arranca gargalhadas da equipe técnica e é escolhido por Peter Olsen (Soren Hellerup), um norte-americano responsável pelo personagem.


Augusto tem dificuldade de emplacar no horário, até que convence a diretora estreante Lúcia (Leandra Leal) a deixá-lo improvisar e conduzir o programa ao seu modo. A tentativa é um sucesso e logo o infantil desbanca a primeira emissora do país. O sucesso mexe com a cabeça do ator, que não pode revelar que é seu intérprete e se afunda nas drogas, acompanhado pelo operador de câmera Vasconcelos (Augusto Madeira).


O filme é a melhor interpretação da carreira do protagonista, que consegue encarnar o personagem como dificilmente outro conseguiria. Augusto Madeira - um dos mais atuantes atores do nosso cinema - está impecável no papel do amigo drogado e farrista. Num contraponto a ele, há a grande participação de Ana Lúcia Torre (Um Tio Quase Perfeito, 2017) no papel da mãe de Augusto, uma antiga atriz que vive no ostracismo e só consegue espaço como jurada de um programa de calouros. Leandra Leal (O Rastro, 2016) também é um destaque, fazendo a chefe evangélica e "linha dura" do palhaço.


O filme conta ainda com a participação de Emanuelle Araújo (Até que a Sorte nos Separe 3, 2015) - interpretando a cantora Gretchen -, Tainá Müller (E aí... comeu?, 2012) - o papel da mãe do filho do protagonista -, além de uma das últimas participações do ator Domingos Montagner (Um namorado pra minha mulher, 2016), no papel de um palhaço que ensina o protagonista a arte da palhaçaria.


O filme é baseado na biografia do ator Arlindo Barreto e teve muitos nomes alterados provavelmente por conta de autorizações, etc. Porém, é muito fácil de reconhecer que Bingo é o palhaço Bozo, a emissora em que trabalha é o SBT (na época, TVS), que a emissora concorrente trata-se da TV Globo, sua mãe é uma referência à atriz Márcia de Windsor e dá pra se fazer ideia de quem são os executivos arrogantes da primeira emissora do país.

A estratégia foi boa, porque permitiu que tais personagens e situações pudessem ser retratados sem muito pudor.


A produção da Gullane - uma das principais produtoras de conteúdo do país - foi bastante corajosa ao apresentar um filme com nudez, sexo e uso de drogas, algo extremamente necessário para se contar essa história mas que normalmente os produtores optariam por suavizar tais elementos e assim tentar atingir o grande público fazendo um filme "para a família".


A direção do estreante Daniel Rezende é um dos grandes trunfos do filme. O cineasta - conhecido como o principal montador do país com filmes como Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002) e Diários de Motocicleta (Walter Salles, 2003) no currículo - consegue extrair o melhor de cada ator sem descuidar-se da parte técnica. Apoiado pela ótima Direção de Fotografia de Lula Carvalho (Robocop, 2014), Rezende cria mis en cene e planos impressionantes, como numa cena em que a câmera sai pela janela de um apartamento, sobrevoa a cidade, entra em outro imóvel e segue para uma cena de diálogos sem nenhum corte.


Este é um dos raros momentos do cinema nacional em que um filme é capaz de agradar à crítica e ao público, com uma história de fácil identificação e apelo popular, e ao mesmo tempo com personagens profundos e bem desenvolvidos. Um filme imperdível!!!


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