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NÃO DEVORE MEU CORAÇÃO

  • 26 de nov. de 2017
  • 2 min de leitura

Uma colagem de trabalhos que já conhecemos

Com uma trama ambientada numa região pouco explorada pelo nosso cinema como a fronteira Brasil/Paraguai, o filme Não devore meu coração desperta uma grande expectativa no público aberto a experiências cinematográficas que vão além das fórmulas hollywoodianas. Tal interesse é quebrado logo no primeiro ato, ao perceber-se gravíssimos problemas de interpretação e um filme confuso.


Dirigido por Felipe Bragança (A Fuga da Mulher Gorila, 2009), acompanhamos o personagem Dezembro (Cauã Reymond), ele faz parte de uma gangue de motoqueiros - liderada por Telecath (Marco Lóris) - que vive se estranhando com a gangue dos paraguaios. É irmão de Joca (Eduardo Macedo), um pré-adolescente apaixonado pela índia paraguaia Bazano (Adeli Gonzales). A tensão entre brasileiros e paraguaios só aumenta a cada cadáver que surge boiando no rio.


Apesar do protagonista estar bem no papel - dentro de suas possibilidades - o filme não deslancha. Tenta ser uma trama de várias camadas, mas nenhuma delas é bem conduzida e sólida. Uma espécie de Romeu e Julieta juvenil é abordada mas não é possível acreditar no romance, uma vez que os estreantes Macedo e Gonzales são inexpressivos, devido às suas inexperiências e falta de bagagem. Há uma relação mal resolvida entre o protagonista e sua mãe, que também é citada de passagem. A amizade entre Dezembro e Telecath é passional e mal explicada, bem como a relação entre o protagonista e os integrantes do bando.

Há ainda as grandes participações de Ney Matogrosso e Leopoldo Pacheco. Pacheco faz um trabalho de voz impressionante e é difícil reconhecê-lo, mesmo para quem conhece bem seu trabalho. Ney está deslocado, faz uma participação mínima - com apenas duas ou três cenas - e seu nome aparece nos créditos no meio dos outros atores, uma verdadeira falta de consideração à sua importante carreira, que merecia ter sido creditado como participação especial ou afetiva. O ator Marco Lóris é uma grata surpresa, pois assume um papel que seria originalmente de Ney e faz um trabalho brilhante, um homem viril e delicado ao mesmo tempo, uma espécie de Madame Satã da tríplice fronteira.


O elenco todo é recheado por não atores que fazem um trabalho paupérrimo e impedem com que qualquer história possa ser contada.


O tempo todo somos levados a associar a história a outros filmes e peças teatrais conhecidas. A trama juvenil - como dito anteriormente - lembra um Romeu e Julieta infanto-juvenil. Cauã e Lóris fazem uma cena que em muito lembra Beijo no Asfalto (Nelson Rodrigues). A turma de garotos lembra Os Goonies (Steven Spielberg, 1985), sua trilha-sonora eletrônica traz um forte clima oitentista, um racha é quase uma reencenação de Juventude Transviada (Nicholas Ray, 1955) e a gangue de motoqueiros lembra em muito o recente Reza a Lenda (Homero Olivetto, 2016), também protagonizado por Cauã.


Apesar de todos os problemas, Não devore meu coração é um reflexo do bom momento que o cinema brasileiro está vivendo, onde até filmes mais herméticos e não convencionais tem espaço nas telas, inclusive apoiado por uma grande distribuidora como Globo Filmes.


 
 
 

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Também escreve esquetes de humor para internet (algumas no programa que também produziu chamado Dedo Indicador) e contos ainda não publicados. Atualmente está filmando dois curtas de sua autoria.  

 

Formado pela FACHA/RJ em Jornalismo e Publicidade & Propaganda. Fez aulas particulares com Jorge Duran (roteirista de Pixote e Lucio Flávio - Passageiro da Agonia). Fez a Oficina de Roteiro da Rio Filme e inúmeros cursos de roteiro com profissionais da área.

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