PARAÍSO PERDIDO


Monique Gardenberg volta aos cinemas com

sua obra mais densa e bem realizada

Por mais que o tema Diversidade às vezes pareça batido e oportunista, chega aos cinemas o filme Paraíso Perdido, que o aborda forma franca e delicada.

Dirigido por Monique Gardenberg (Ó Pai, Ó, 2007), o filme conta a história de uma boate chamada Paraíso Perdido, conduzida por José (Erasmo Carlos), o patriarca da família que contrata o policial Odair (Lee Taylor) para cuidar da segurança de seu neto Imã (o estreante Jaloo). O policial é o fio condutor entre a trama e o público, que assim pode conhecer os filhos do patriarca: Ângelo (Júlio Andrade) e a presidiária Eva (Hermila Guedes), seus netos Imã e Celeste (Julia Konrad). Eles são circundados pelo temperamental Joca (Felipe Abib) - namorado de Celeste -, o professor Pedro (Humberto Carrão) - um pretendente da drag queen Imã -, a detenta Milene (Marjorie Estiano) - namorada de Eva - e Teylor (Seu Jorge), que sonha deslanchar na carreira artística enquanto canta na casa noturna.


Numa alusão bíblica, o patriarca do Paraíso Perdido possui o mesmo nome do pai de Jesus Cristo. Da mesma forma, seu filho talentoso e apaixonado pela mulher que lhe deixou chama-se Ângelo - como uma espécie de anjo que cuida do lugar e das pessoas. O personagem tenta harmonizar todos à sua volta e em nenhum momento os julga, aceitando de coração aberto até sua irmã bissexual, que cometeu um grave erro no passado - o que lhe colocou na cadeia - e não por acaso chama-se Eva. Ainda pra completar, sua filha linda e grávida - responsável por trazer uma nova vida ao mundo - chama-se Celeste.


A diretora consegue o grande mérito de aliar uma boa direção de arte, excelente fotografia - de Pedro Farkas (O Escaravelho do Diabo, 2016) - e diálogos primorosos com atuações impecáveis. Com um elenco plural que inclui desde um ícone da música brasileira (Erasmo Carlos) - que há tempos não fazia um filme - , passando por um dos melhores atores brasileiros da atualidade (Júlio Andrade) e um galã da nova geração (Humberto Carrão), até chegar em atores desconhecidos como Julia Konrad e Jaloo, a diretora consegue com que atinjam uma interpretação equilibrada, como se fossem todos veteranos. As únicas pessoas que estão deslocadas é Malu Galli - que interpreta a surda Nádia, mãe de Odair - e Seu Jorge. A atriz não parece à vontade no dialeto de libras, fazendo gestos lentos - como quem ainda pensa para falar -, o que não vemos com surdos reais. O talento de Seu Jorge é desperdiçado, uma vez que seu personagem - totalmente irrelevante à trama - transmite a sensação de que foi criado às pressas diante da possibilidade de ter a estrela internacional no elenco.

Surpreendentemente Jaloo não é ator, mas sim um cantor da nova cena da música eletrônica brasileira, mas que - com um papel feito sob medida - é um dos principais nomes deste filme coral. Além de sua interpretação inspirada, seu personagem tem grandes sacadas, como mostrar seu orgulho por ser homem, ainda que no palco vista-se como mulher, o que causa enorme confusão na cabeça de seu pretendente Pedro. Em determinado momento, a drag queen diz a Odair: "Pode não parecer, mas eu adoro ser homem".


O filme é recheado de hits românticos - chamados vulgarmente de bregas - dos anos 70, com músicas de Márcio Greyck, Roberto Carlos, Fernando Mendes, Odair José, Waldick Soriano, Raul Seixas e Belchior escolhidas à dedo por Zeca Baleiro, que assina a direção musical e por quem Júlio Andrade confessa ter se inspirado.


Paraíso Perdido procura não se identificar em nenhuma região - apesar de que, quem conhece, sabe claramente que foi rodado em São Paulo - como se fosse uma fábula, algo como um lugar e tempo indeterminado, uma vez que, apesar de não ser um filme de época, os personagens se caracterizam de forma retrô e não aparecem equipamentos eletrônicos modernos, como celulares e computadores.


Como nas músicas executadas, o filme apresenta uma família que transborda de amor porém mesclado por muita dor. Um clima de Ilha da Fantasia permeia Paraíso Perdido, onde os frequentadores - e o público do cinema - deixam seus problemas do lado de fora e mergulham naquele mundo de fábula.


É um filme imperdível, daqueles que assistimos com a respiração ofegante, a emoção à flor da pele, que tem um excelente roteiro e atuação, tecnicamente impecável, e que toca em assuntos urgentes de serem abordados. Como diz Ângelo a Imã: "As pessoas não te odeiam pelo que você é, mas pelo que elas não conseguem ser." Nada mais pertinente do que estreá-lo no fim de semana da Parada do Orgulho Gay Paulistana.


Assista a Coletiva de Imprensa NA ÍNTEGRA de lançamento do filme:


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