VOCÊ NUNCA ESTEVE REALMENTE AQUI (You Were Never Really Here)


Contundente e visceral


Atrás de fórmulas pasteurizadas visando garantia de êxito nas bilheterias, o cinema - nacional e internacional - tem ficado cada vez menos contundente, e quando surge um filme que vá "contra a maré" e ainda com um bom produto final, reconhecido num dos principais festivais do mundo, é algo a ser comemorado.


O filme Você Nunca Esteve Realmente Aqui conta a história de Joe (Joaquin Phoenix), um ex-militar que sobrevive como matador de aluguel a serviço de Johnn McCleary (John Doman), ao mesmo tempo que cuida de sua mãe. Com uma possível infância abusiva, tem na defesa de crianças seu ponto fraco, e é exatamente num caso como esse - onde é contratado pelo Senador Votto (Alex Manette) - que se vê envolvido numa conspiração política de alto calibre. Qualquer coisa a mais que se diga pode prejudicar a apreciação do expectador.


Escrito e dirigido pela bissexta escocesa Lynne Ramsay do contundente Precisamos Falar Sobre o Kevin (2012), é o segundo lançamento da cineasta - que possui quatro filmes - no Brasil. Mais uma vez, Ramsay apresenta um trabalho seco, crú e visceral. Você Nunca Esteve Realmente Aqui possui uma violência contida. Diferente do que alguém possa dizer, a diretora resiste à tentação de mostrar toda a violência que acontece no filme, não fazendo espetacularização dela.

Seu roteiro surpreende, ao deixar por diversos momentos o público sem imaginar o que irá acontecer, por vezes mostra que não é o que o expectador havia imaginado e ainda consegue uma grande reviravolta ao final. E conduz com tamanha maestria seu roteiro e direção que é capaz de usar a cena mais tensa do filme Psicose (Alfred Hitchcock, 1960) como uma piada politicamente incorreta.


A diretora mostra que sabe escalar muito bem seu elenco ao dar o papel protagonista a Joaquin Phoenix (Ela, 2013), que interpreta como ninguém um personagem tão complexo e ao mesmo tempo introspectivo. O ator utiliza-se de sua capacidade visceral de mudar fisicamente - neste caso ganhando músculos e muita gordura - aliada ao seu raro talento de "falar com os olhos" para encarnar o personagem violento e autodestrutivo. A união do belo trabalho de Phoenix com Ramsay foi refletido nos prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Ator no Festival de Cannes.


Outro ponto forte é a trilha-sonora eletrônica de Jonny Greenwood (Sangue Negro, 2007), que complementa as ações sem abusar da música nem ser redundante às imagens. Tudo é bem amarrado com a belíssima e ousada montagem do experiente Joe Bini (Meu Melhor Amigo, 1998), que já havia trabalhado com a diretora em Precisamos Falar Sobre o Kevin.

A qualidade do filme deixa vontade de conhecer os outros dois trabalhos de Lynne Ramsay e este é um filme que vale o ingresso até para os mais sensíveis.

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