TUDO É IRRELEVANTE, HÉLIO JAGUARIBE (idem)


A Cosmogonia do Hélio


A diretora e também roteirista Izabel Jaguaribe faz uma homenagem ao seu pai no documentário Tudo é irrelevante, Hélio Jaguaribe (2017) retratando a densa e intensa trajetória intelectual do cientista social que pensava a filosofia como instrumento não só de interpretar, mas também de transformar a realidade.


Os diversos interesses de Hélio são apresentados e discutidos por ele próprio através do uso de imagens e voz gravadas a partir de depoimento pessoal, obtido de arquivo, e utilizado intercalando às declarações de seus colegas intelectuais e contemporâneos à época. Vale notar, como curiosidade, que a atriz Fernanda Montenegro surge em dois momentos da filmagem. Ora como uma das entrevistadas comentando os conceitos de Hélio à luz de sua compreensão, ora como narradora, que apresenta a filosofia do homenageado.


A diversidade dos interesses de Hélio Jaguaribe é impressionante. Um humanista não religioso, ateu convicto, ele parte do materialismo e da irrelevância do homem diante de todo Universo, para um racionalismo que privilegia a ação humana na construção da realidade, dando sentido à vida dos indivíduos naquilo que diz respeito à ordem do material e não do metafísico. Essa materialidade, contudo, não é desprovida de transcendência, explica Hélio, pois o humano não se resume ao biológico, mas a tudo que o homem pode imaginar e criar, incluindo a Arte e o Humanismo. Diz ele: “Ser um homem de bem, é um enorme exercício de transcendência humana”.

É uma maratona de conceitos que ilustram o mundo de idéias que Helio trabalhou, construído como um Cosmos que explica desde a gênese do homem até a construção da vida em sociedade e seu desenvolvimento social, científico e econômico. Desenvolvimento que preocupou o intelectual no contexto da história brasileira e suas posições políticas, com apoio a Getúlio e Juscelino Kubitschek, até sua clara adesão e contribuição ao projeto nacional-desenvolvimentista.


A complexidade do pensamento de Helio Jaguaribe não é abrandada pelo documentário. É uma profusão de conceitos e debates apresentados em série e que provavelmente desmotivará a maior parte dos não iniciados nos temas. Agrava-se esse ponto quando a diretora opta por cenas em que as falas do intelectual e dos comentaristas em off são ilustradas por imagens desenhadas, em movimento de rolagem, ora com arabescos, ora motivos geométricos ou siderais, dentre outros, que parecem querer dar impressão do fluxo de consciência dos pensamentos, mas cujo efeito, a depender do grau de atenção do espectador, poderá ser a dispersão.


Um documentário que mais reforça e consolida o grande pensador Helio Jaguaribe aos que já o conheciam e lidavam com sua obra, do que uma introdução de seu mundo e herança intelectual aos mais jovens.


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