PASTOR CLÁUDIO


Dê poder ao homem e assim o conhecerá


O sangrento período da ditadura militar brasileira (1964 - 1985) continua a gerar muito material para o cinema, alguns muito interessantes, outros, nem tanto.. E é este o caso do filme Pastor Cláudio.


Dirigido por Beth Formaggini (Xingu Cariri - Caruaru Carioca, 2017), apresenta a entrevista o ex delegado de polícia do DOPS (Departamento de Ordem Política Social, 1924 - 1983) Cláudio Guerra, que - de forma pouco velada - orgulha-se de seu trabalho sujo durante o período militar: o de executar e incinerar os corpos de guerrilheiros rivais. Curiosamente, o filme aproveita-se da atitude do entrevistado - agora pastor evangélico - de pedir um momento antes de iniciar a entrevista para pegar uma bíblia. Questionado pelo entrevistador - o defensor dos Direitos Humanos Eduardo Passos - como gostaria de ser chamado, o entrevistado alega ser um novo homem e que, portanto, prefere ser chamado de Pastor Cláudio.


Sem nenhuma cerimônia, Pastor Cláudio conta como começou a fazer as tais "missões", como eram chamados os serviços que os militares prestavam de executar pessoas dos movimentos contrários ao governo. Na tentativa de fazer o plano perfeito, os militares eram enviados a outros estados e somente no dia do "Trabalho" eram informados sobre quem seria a próxima vítima. Dessa forma evitava-se que o algoz conhecesse o executado e ao mesmo tempo não tivesse como vazar a informação de quem seria a vítima.


Outro ponto estarrecedor foi a engenharia de se combinar com o dono de uma usina de cana de açúcar a incineração dos corpos, que eram transportados em sacos pretos até a fornalha, sempre descoberto no último minuto para saciar a curiosidade dos responsáveis pelo desaparecimento dos corpos. Há até o caso de uma das vítimas, que teve seu braço amputado e, segundo Pastor Cláudio "muito machucado". Como pagamento, o dono da usina recebia, de empréstimos generosos a frequentes incêndios nas plantações de cana de seus concorrentes um mês antes de estarem prontas para a colheita.


Como cinema, é um filme bastante limitado, pois trata-se do chamado "cabeças falantes", onde o entrevistador pergunta, o entrevistado responde, e alguma imagens ilustram a conversa. Para tentar dar um sopro de originalidade, os personagens estão na frente de uma tela onde são projetadas imagens dos algozes e, principalmente, das vítimas. Nada que qualquer programa do jornalista Roberto Cabrini não faça melhor.


Não dá pra saber o que é real, uma vez que o agora pastor - acusado de mentiroso pelo falecido (em condições extremamente suspeitas) tenente-coronel Paulo Malhães (1938 - 2014) - utiliza-se de seu passado sangrento para propagar sua igreja e os "milagres" que passou.


Deixando o romantismo de professores doutrinadores de lado, fato é que - se as Forças Armadas não tivessem tomado o poder em 1964 - o país teria mergulhado numa ditadura comunista e provavelmente estaria hoje em condições muito piores. Vide os exemplos de Cuba e Venezuela. Porém, o poder dado aos militares fez com que abusassem dele, perseguindo e executando qualquer pessoa que tivesse o mínimo de suspeitas de ligação com movimentos contestadores, e ao mesmo tempo enriquecendo pessoalmente com o dinheiro de empresários e banqueiros que financiavam a ditadura militar.


Infelizmente, filmes como esse não são feitos com o objetivo de alertar o povo sobre os horrores da ditadura militar, mas sim, fazer uma propaganda velada da quadrilha que dominou o Brasil do início deste século até o ano passado, e tentou - por três vezes - transformar o país numa ditadura comunista. Talvez seja a hora de se produzir filmes que abordem a cegueira coletiva que assola o país e faz com que os maiores absurdos sejam vistos como benéficos, desde que venham da organização criminosa que promoveu o maior roubo de uma democracia.


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