VINGANÇA A SANGUE FRIO (Cold Pursuit)


Tiro, porrada, bomba e risada

Há atores que, pela recorrência de seus papéis e habilidade em interpretá-los, encarnam de maneira mais que convincente seus personagens, a ponto de o espectador sacar de imediato sua personalidade no filme. Nesse aspecto, Liam Neeson (As Viúvas, 2018) tem o perfeito physique du rôle (tipo ideal) para viver o personagem central de Vingança a Sangue-Frio.


Nels Coxman (Liam Neeson) é um operador de caminhão limpa-neve que foi nomeado Cidadão do Ano da pacata Kehoe, em Denver - estado de Colorado, onde vive com sua mulher, Grace (Laura Dern). Seu dia-a-dia é duro, o clima é inóspito e nada de novo acontece. Sua rotina é quebrada com a notícia de que seu filho Kyle (Micheál Richardson) foi assassinado e que seria, supostamente, um usuário de drogas. Diante disso, vê sua relação com sua mulher ruir, e convicto de que seu filho não era um viciado, inicia uma jornada violenta e impiedosa em busca de vingança.


Apesar de se tratar de um remake de O Cidadão do Ano - do próprio diretor, o norueguês Hans Petter Moland, o papel de protagonista parece ter sido escrito especialmente para Neeson. É como que se lá estivesse o espírito de Bryan Mills, de Busca Implacável (Pierre Morel, 2008), obviamente ignoradas as suas profissões nas diferentes tramas. Estão ali presentes o mesmo pragmatismo, contundência, frieza e violência.


Moland acerta ao partir logo para a ação propriamente dita, sem perder tempo com explicações, e o personagem Nels age imediatamente ao assassinato de seu filho e na busca de todos os envolvidos, abatendo um a um, o que garante um bom ritmo às cenas.

O roteiro é bem costurado, o que explica por que a polícia, a comunidade e os traficantes entendam que as mortes sejam decorrentes de uma disputa por poder e área geográfica de tráfico.


Outro acerto que agrada bastante é a pegada de humor e sarcasmo que permeia todo o filme e que funciona muito bem. Em alguns desses momentos, dá um respiro ao ritmo, como nos créditos póstumos e numa cena ao final, hilária.


As cenas em meio à neve, ao vento e ao frio extremo causam grande desconforto e uma certa agonia para um espectador de país tropical, tornando impossível não pensar numa interjeição pouco polida.


Mais uma vez se observa a onipresença nos roteiros - mesmo que de gêneros diversos - de temas de fundo como as relações familiares. O antagonista Trevor "Viking" Calcote, vivido por Tom Bateman, tem uma relação muito conturbada com sua ex-mulher, e expressa amor por seu filho Ryan (Nicholas Holmes) não através de carinho, afeto e atenção, mas através do cuidado extremo que tem com sua alimentação, pois entende que seja frágil sua saúde. Para ele, dar amor é alimentar de maneira adequada e mantêm-se distante emocionalmente do filho, que por sua vez, em determinado momento chega a se afeiçoar - numa referência à Síndrome de Estocolmo - ao seu suposto algoz.


O diretor exagera na simetria entre o filme original e o atual. É tanta semelhança que chega a incomodar a quem assistiu aos dois. Vários enquadramentos, sequências e atitudes dos personagens são exatamente iguais. Algo como um desejo de fazer milimetricamente o mesmo filme porém, com novo elenco. Erra também ao frequentar um lugar comum, na forma como estereotipa uma etnia, representando-a de maneira caricata.


De maneira geral, Vingança a Sangue Frio é um filme agradável, que consegue ser violento, intenso, sangrento, e, apesar disso, ter o contraponto da comédia. Vale o preço do ingresso.


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