Amor Até as Cinzas (Ash is Purest White)


Cinema chinês com pegada francesa


Quando se fala em cinema chinês, imediatamente vem à cabeça aquelas megaproduções, com milhares de figurantes, figurinos luxuosos e locações suntuosas. Em Amor Até às Cinzas trata-se de outro caso. Um cinema delicado, de baixo orçamento, com forte influência francesa e pitadas tarantinescas.


O filme conta a história de Qiao (Tao Zhao), uma moça que se apaixona pelo mafioso Bin (Fan Liao) e por ele enfrenta cinco anos de prisão até perceber que tanta dedicação não valeu à pena.


Dirigido pelo premiado cineasta Jia Zhangke (As Montanhas se Separam, 2016) - queridinho do Festival de Cannes e recentemente biografado por ninguém menos que Walter Salles Jr (Central do Brasil, 1998) no filme Jia Zhangke, um Homem de Fenyang (2014) - Amor Até às Cinzas tem uma direção impecável, principalmente quando se refere aos protagonistas Zhao (que está sempre em seus filmes) e Liao, que tem muita química ao formarem um casal de um criminoso com uma não criminosa que torna-se contraventora por amor. O filme tem o tempo de interpretação muito comum ao cinema francês, mais cadenciado, dando tempo ao espectador de praticamente sentir o que a protagonista sente.


Quando o diretor apresenta uma cena de luta, não é como o cinema chinês costuma fazer, mas sim algo mais parecido com - o supervalorizado - Quentin Tarantino (Os Oito Odiados, 2015) imitando o cinema francês. Em certos momentos, Zhangke opta por planos sequência, para que assim possa dar espaço para que os atores possam desenvolver melhor a emoção de cada cena. O diretor trabalha muito com não-atores, o que, nem sempre, permite uma atuação convincente, mas sabiamente, esses são casos isolados e pequenas participações que não atrapalham o mergulho na história.

O roteiro é quase um épico, e - guardadas as devidas proporções - em certos momentos lembra o genial Era Uma Vez na América (Sergio Leone, 1984). Ele conta desde o início do namoro, quando Bin é um poderoso e vigoroso mafioso, passa pelos anos de prisão de Qiao, até o reencontro de ambos durante alguns anos, bem como a degradação física dele.


Apesar de, notadamente, ser um filme de baixo orçamento, é uma produção bem cuidada, cuja maquiagem e reconstituição de época conseguem perfeitamente contar a passagem dos anos do casal. Em determinado momento torna-se um road movie, passando por trem, navio, moto, etc. As paisagens também não são as que costumamos ver em filmes chineses e mostram desde a periferia da cidade e seus costumes locais, passando por enormes fábricas e usinas até as paisagens infinitas, mais previsíveis, da China.


Há uma cena - logo no início do filme - que o casal dança a música YMCA (Village People) - provavelmente a favorita da protagonista - que mostra, sem uma palavra, o desenvolvimento do relacionamento do casal, do momento em que ela descobre que ele é um criminoso até a aceitação.


No terceiro ato, Amor Até às Cinzas sofre um pouco com o ritmo, que fica mais lento e torna-se arrastado. Uma curiosidade: no final da história, o diretor aparece como um quase figurante, filmando tudo com seu telefone celular, onde os amigos perguntam: Você está filmando, Jia?


Sem dúvidas, um grande filme e merece ser visto. Mais um grande lançamento da distribuidora Imovision. Não à toa, foi selecionado para o famoso Festival de Cannes 2018.


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