CEMITÉRIO MALDITO (Pet Sematary)


Cuidado com o que você deseja. Você pode conseguir.


Há coisas que deveriam ter valores definitivos, imutáveis, socialmente falando. Moral e ética, por exemplo. Na prática, o que é imutável é a condição defectível do ser humano, para quem estes princípios tem valores flexíveis. Mesmo aqueles que se entendem como pessoas justas, corretas e éticas, veem suas convicções se afrouxarem ao sabor das intempéries da vida e a medida da fidelidade aos princípios é inversamente proporcional à situação vivida. E assim é também na ficção.


Em Cemitério Maldito estas questões são colocadas de maneira brilhante e incontestável. Nenhuma surpresa, já que o filme se baseia no livro homônimo de Stephen King.


Cansados da rotina extenuante de Boston, o casal Louis (Jason Clarke) e Rachel (Amy Seimetz) se muda com seus filhos Ellie (Jeté Laurence) e Gage (Hugo Lavoie) para uma pacata casa em Maine. Logo que chegam, sua filha descobre que ao lado de casa há um cemitério de animais domésticos. Dias após, um animal de estimação da família é encontrado morto. O vizinho Jud (John Lithgow) vê o quanto Ellie é apegada a ele e leva seu pai para enterrá-lo num local mais afastado, sem dizer que ali é uma antiga área de culto tribal. Está lançado o desafio aos valores pessoais de Louis.


Os diretores Kevin Kölsch e Dennis Widmyer (Starry Eyes, 2014), voltam a dirigir em parceria, desta vez neste remake de um clássico do final dos anos 80. É claro que a espinha dorsal do filme é a mesma, mas não se puseram a seguir fielmente a trama. Personagens foram suprimidos ou realocados e uma interessante inversão de protagonismo conferiu à nova produção mais impacto, consistência e maior possibilidade de exploração do conflitos.


A direção de atores é um ponto que chama atenção de maneira positiva se comparada à versão anterior, sendo muito melhor resolvida que as interpretações dos protagonistas pregressos, de rasa profundidade, o que confere envolvimento e imersão ao espectador.


O filme é muito bem produzido, com cenas muito mais convincentes que o original, não apenas por toda a atualização tecnológica surgida nos trinta anos que separam as duas produções, mas também pela competência dos diretores, que sabem entreter e surpreender o espectador.

O desenho de som merece destaque pois, bem executado que é, mostra a importância dos componentes sônicos (trilha, áudio captado e foleys), que ampliam a percepção dramática e contribuem grandemente com o filme, como deve ser.


Além do aspecto psicológico do conflito ético-moral, outra questão é trazida implicitamente: o paradigma da existência ou não da vida após morte, da Vida Eterna (Cristianismo), Reencarnação (Espiritismo) e que tais. O personagem Louis é cético quanto a isso e deixa claro em diferentes ocasiões. Para ele, simplesmente a vida tem fim; Há ali também uma "provocação", pois seu gato se chama Winston Churchil mas é chamado de "Church" (igreja em inglês); O conflito propriamente dito vem à tona, principalmente quando da perda de um ente querido, quando sentimentos como amor, arrependimento, egoísmo, culpa e angústia o tomam e colocam em xeque suas convicções. O fato faz com que ele procure desesperadamente por algo que até então não acreditava e busca uma forma sinistra de vida após a morte.


A dupla de diretores ainda blefa com o espectador que assistiu à primeira produção, pois a história parece seguir para o mesmo desfecho, quando na verdade, surpreendem com um final instigante.


É claro que há questões não tão bem resolvidas. A direção de arte, por exemplo, apesar de ser boa e fugir com sucesso da estética característica dos anos 80, em um ou outro ponto deixa a desejar, como a "barreira" que separa o Cemitério de Pets da, digamos, "área maldita", que é tão ruim quanto a anterior ou o gato animatrônico que, pela aparência, parece ter sido feito por crianças do jardim da infância com uma tosca pistola de cola. Além de algumas questões de menor importância não serem bem explicadas.


De uma forma geral, Cemitério Maldito agrada bastante, prende a atenção de ponta-a-ponta e, se você é do tipo que curte sustos e arrepios, este filme é diversão garantida.


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