O PARAÍSO DEVE SER AQUI  (It Must Be Heaven)


Inovação que já não impressiona


O Paraíso Deve Ser Aqui, filme que marca o retorno do estilo inconfundível do diretor e roteirista palestino Elia Suleiman (Intervenção Divina, 2002), sempre caracterizado por um experimentalismo radical, pelo simbolismo metafórico de imagens que nos conduzem a sensações e conclusões a respeito das analogias feitas pelo diretor, muitas vezes, aliás, sem a necessidade de qualquer diálogo ou texto escrito pra que possamos compreender a mensagem.


Porém, conforme costuma quase sempre acontecer quando um diretor trilha por muito tempo o caminho do experimentalismo sem concessões, seu cinema (embora ainda há anos-luz da mesmice que reina na cinematografia mundial contemporânea) já apresenta sinais de cansaço e esgotamento temático e também narrativo.


Quando falo em esgotamento temático não me refiro apenas ao fato de Suleiman sempre ter como pano de fundo em suas histórias a questão do eterno conflito (tanto bélico quanto cultural) entre palestinos e israelenses, mas também pela forma como tais relações de choque entre diferentes culturas e interesses ocorre. Suas alegorias silenciosas a respeito desse embate eterno, embora divertidas, se tornaram previsíveis e repetitivas, pois parece que o diretor/roteirista está sempre tentando alcançar novamente a genialidade de seu indubitável melhor trabalho, o inesquecível Intervenção Divina, realizado em 2002.


Só a título de comparação, relembro a forma genial como o diretor se utilizou apenas de uma chaleira com água fervendo, filmada muito de perto, alternando-a com situações de conflito no Oriente Médio, para construir uma interessante metáfora acerca de um território em constante "ebulição".

Ainda no clássico Intervenção Divina há também a impagável cena em que um rapaz enche uma bexiga que, quando solta no ar e em direção ao deserto, revela a icônica face do líder palestino Yasser Arafat (1929 - 2004), lateralmente ali impressa.


Já em O Paraíso Deve Ser Aqui, tais metáforas visuais criadas por Suleiman resumem-se à chegada do próprio diretor (interpretando a si mesmo) primeiramente à Paris, e ali embasbacando-se com a "beleza e elegância das mulheres parisienses" e, em seguida, tentando desembarcar num aeroporto norte-americano e, supostamente, sendo discriminado pelos agentes de segurança do local, em função de sua aparência "árabe", etc. Ou seja, situações bem mais previsíveis e portanto bem menos criativas do que as apresentadas no insuperável Intervenção Divina.


Talvez a melhor situação apresentada no filme seja mesmo a pequena participação do astro mexicano Gael García Bernal (O Crime do Padre Amaro, 2003), interpretando a si mesmo também, numa situação em que é tratado como celebridade por uma produtora norte-americana, enquanto Suleiman é apenas convidado a "esperar por um atendimento".


Em resumo, apesar de suas inegáveis inovações e radicalismo de outros tempos, o cinema de Suleiman de hoje também parece oferecer mais do mesmo, bem menos ousado e interessante de anos atrás.

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