A DIVISÃO (idem)


Com pequenos deslizes,

um belo relato da polícia brasileira


Desde o lendário Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002), os filmes que abordam o conflito da polícia com a favela ganharam espaço, tornando-se uma espécie de gênero, o Favela Movie. Vieram títulos de enorme sucesso como Tropa de Elite 1 e 2 (José Padilha, 2007 e 2010) - responsável por bordões que tomaram conta do país -, e outros de menos êxito, como Operações Especiais (Thomás Portella, 2014), o recente - e excelente - Pacificado (Paxton Winters, 2019) e o - ainda inédito - Intervenção (Caio Cobra, 2020). Nenhum atingiu êxito parecido ao de Tropa de Elite, porém, nota-se um amadurecimento no discurso e nos roteiros. Isso fica evidente no novo título: A Divisão (Vicente Amorim, 2020).


Criada como uma série exclusiva à Globoplay, A Divisão é lançada nos cinemas agora em formato de longa-metragem. A direção ficou a cargo do experiente e versátil Vicente Amorim (Irmã Dulce, 2014), que consegue extrair grandes atuações de seu excelente elenco.


A Divisão conta a história de um período no Rio de Janeiro (década de 90) em que a quantidade de sequestros aumentou vertiginosamente. Já não era mais necessário ser de família rica para sofrer um sequestro, e isso agitou a opinião pública forçando a Secretaria de Segurança Pública a buscar uma solução. Na trama, o chefe de polícia (Bruce Gomlevsky) encarrega o truculento Delegado Mendonça (Silvio Guindane) para encabeçar uma dura batalha contra a modalidade de crime mais usual naquele momento em parceria com o corrupto Santiago (Erom Cordeiro). Naquele momento estava sequestrada a jovem Camila (Hanna Roamanazzi), filha do deputado Venâncio Couto (Dalton Vigh) e Raquel (Vanessa Gerbelli).


Produzido por José Júnior, da ONG AfroReggae, A Divisão tem roteiro forte, robusto, nitidamente desenvolvido por gente que conhece claramente os personagens abordados. Escrito por Gustavo Bragança (do inédito Lúcia McCartney), o roteiro evita maniqueísmos - tanto por parte da polícia quanto dos "bandidos" -, porém, escorrega em um momento ou dois com soluções fáceis para as situações desenvolvidas. Mas nada que prejudique o filme.


O mesmo se dá com as interpretações. O ótimo elenco composto também por Natália Lage, Marcos Palmeira e Thelmo Fernandes, vai muito bem, mas por alguns momentos escorrega para o "piloto automático" e volta segundos depois. Também algo muito sutil e quase imperceptível. O grande destaque para o elenco vai para o onipresente Augusto Madeira (Bingo - O Rei das Manhãs, 2017), que mostra, mais uma vez por que é o ator mais atuante no cinema atual. Cada cena sua é um deslumbre, no papel de um bicheiro ou coisa parecida. Infelizmente, sua caracterização deixa a desejar. Fizeram uma calvície no ator que soa artificial e distrai a atenção de quem o conhece.


Entre muitos acertos e pouquíssimos erros, A Divisão é um grande filme e poderia ser assistido antes de Tropa de Elite 1 e 2 para se entender como funciona a polícia brasileira.

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