AS INVISÍVEIS (Les Invisibles)


Visível e tristemente engraçado


As Invisíveis é, antes de tudo, um filme que poderia ser feito no Brasil sem nem precisar mudar muita coisa na adaptação. O assunto do que fala é visível no mundo inteiro e os problemas são praticamente os mesmos. O diretor e roteirista Louis-Julien Petit (Carole Matthieu, 2016) fez um filme que transita no campo da Comédia Social. O mesmo trilhado pelo diretor Peter Catanneo que criou a comédia dramática Ou Tudo ou Nada (The Full Monty, 1997), que mostrava a odisseia de um grupo de desempregados e aposentados que decidem criar um show de striptease. Todos eles párias da sociedade que precisavam dar um sentido novo para suas vidas.


Também párias são as personagens desse filme que fala sobre os esforços de um grupo de funcionárias que administram um abrigo diurno para as mulheres em situação de rua na França.


As quatro colegas vividas pelas ótimas atrizes Corinne Maziero (A Corte, 2016), Audrey Lammy (Tudo que Brilha, 2010), Noèmie Lvosvsky (Camille Outra Vez, 2012) e a personagem deliciosamente mal humorada Angélique, defendida por Déborah Lukumuema (Divinas, 2016), se desdobram em cuidados com as mulheres abandonadas que as procuram. São todas muito empenhadas em fazer algo por esse grupo que é colocado a margem da sociedade por sofrerem as causas de múltiplos preconceitos: pobreza, baixa cultura, etnia, imigração, idade avançada, vício em drogas, problemas psicológicos e uma série de tragédias que mostram o outro lado da tão cantada civilização europeia. Essas mulheres são personagens que não aparecem em propagandas de perfume francês e transitam em ambientes que nem de longe lembram o glamour dos centros históricos europeus e seus monumentos iluminados.

O grupo de mulheres que frequentam o abrigo é um “espetáculo” a parte. Com exceção de duas que são interpretadas por atrizes, todas elas foram escolhidas por estarem - ou terem estado - na situação de rua retratada pela história que está sendo contada. Seus rostos castigados pela vida dura que levam - ou levaram - nem precisam de diálogos para emocionarem o espectador. Quando atuam, o fazem com naturalidade e expressividade, um fruto da direção precisa e muito bem conduzida pelo já citado diretor/roteirista.


Todos esses detalhes parecem fazer parte de um drama tristonho e cinza, mas Louis-Julien Petit consegue realizar uma comédia agridoce, alternando momentos de drama bem pesados com outros que divertem sem debochar do assunto. É muito divertido acompanhar as tentativas das funcionárias do abrigo para acharem emprego ou moradia para suas amigas. Preenchem as fichas com eufemismos ou simplesmente mascarando a verdade para que as coitadas sejam aceitas por alguma firma, chegam a deixar que elas durmam na edificação que não foi feita para isso e se juntam para arrumar um jeito de arrecadar dinheiro aproveitando as habilidades de cada uma delas. Seu esforço é mal visto pela instituição de serviço social do estado que as considera boas demais e causadoras de uma dependência por parte das assistidas.


Vigiadas pelo estado, elas dão um jeito de ludibriar a lei e partir para essa empreitada humanista que conduz a um final que surpreende com seu realismo cruel enlaçado com mensagem de positivismo.


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