SOLTEIRA QUASE SURTANDO


Faltou o tempero brasileiro


Já dizia Caetano Veloso em seu primeiro (e único) longa-metragem ficcional como diretor, intitulado O Cinema Falado (1986): "O único momento em que o cinema brasileiro verdadeiramente encontrou seu próprio tom, foi durante o auge das Chanchadas".


E o fato é que eu particularmente concordo com a afirmação, pois também acho que nosso cinema made in Brazil nunca foi tão autenticamente brasileiro quanto nesse período em que as comédias de apelo popular (conhecidas como "Chanchadas") reinavam em nossos cinemas, em meados da década de 50.


É bem verdade que tal subgênero da comédia tradicional tem matriz italiana, oriunda do cinema de apelo igualmente popular lá também realizado mais ou menos neste mesmo período. Mas também acho que o cinema brasileiro cinquentista adaptou com muita precisão este subgênero à nossa realidade, ao contrário do que acontece hoje em dia, quando as novas comédias brasileiras de apelo teoricamente popular na verdade seguem um formato claramente inspirado no cinema norte-americano de vertente mais comercial, o que resulta em filmes tecnicamente bem melhor realizados do que as clássicas Chanchadas, é verdade, porém absolutamente sem personalidade e quase que totalmente distantes de nossa própria identidade cultural.

Feita a introdução, falemos agora especificamente sobre Solteira Quase Surtando, filme dirigido por Caco Souza (400 Contra 1, 2010).


Esta comédia, que pouco ou nada possui em termos de "brasilidade", derrapa quase o tempo todo em sua tentativa de extrair humor de situações cotidianas tão genéricas (do tipo que poderiam ocorrer com qualquer mulher de classe média norte-americana ou européia, por exemplo) que dificilmente despertariam simpatia de um público de perfil realmente popular ao qual ao filme teoricamente se destina.


Uma das poucas coisas que às vezes funcionam em Solteira Quase Surtando corresponde justamente a um dos clichês máximos da comédia romântica norte-americana que quase sempre opta pelos seguintes contrapontos à figura da indefectível mocinha virtuosa e insegura que são: A) amiga maluquinha e divertida ou B) amigo homossexual divertido e espirituoso.


Bem, aqui se adotou a opção B, vivida pelo ator Leandro Lima (Antes que Eu me Esqueça, 2018) com eficácia. Seu personagem, sem dúvida, rende alguns dos (poucos) melhores momentos do filme, como por exemplo no caso em que ele se dirige à protagonista, dizendo ironicamente: "Xi, amiga, você já tá mais rodada do que prato de micro-ondas".


Aliás, a protagonista vivida por Mina Nercessian (Adágio ao Sol, 2000) não foge em nada ao estereótipo da mulher de trinta e poucos anos, "realizada no trabalho, mas infeliz no amor" que normalmente encontramos, na quase totalidade das já citadas comédias românticas norte-americanas.


Válido enquanto tentativa de cinema "independente" made in Brazil, Solteira Quase Surtando, infelizmente derrapa em sua escolha por muitos clichês narrativos e, portanto, em sua quase total ausência de personalidade e originalidade. Mas se salvam ao menos a boa atuação de Leandro Lima e o charme da bela Mina Nercessian.


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