KOMPROMAT – O DOSSIÊ RUSSO (KOMPROMAT)



A FUGA DO “COQ”

por Vicente Vianna



Que a Rússia tem dificuldades com seus acordos internacionais, não é novidade. Não á toa está em guerra em pleno 2022, mas chegar ao ponto de destruir a vida de um diplomata de outro país por não concordar com sua visão liberal dentro da sociedade parece uma ficção Kafkiana, um ambiente de absurdo, angustia e pesadelo como a obra de Kafka.

Lembrou O Processo (Orson Welles, 1962) misturado com O Expresso da Meia Noite (Alan Parker, 1978), um pelo absurdo da situação e o outro pelos clichês de fuga em filmes de ação.

Kompromat é uma palavra criada pelo Serviço Secreto Russo que significa destruir reputações com documentos forjados atendendo unicamente a política da Rússia. A institucionalização das Fake News. O diretor belga - também roteirista e fã de HQ (História em Quadrinhos) - Jérôme Salle (A Caçada, 2005), indicado para o Prêmio César de Melhor Longa-Metragem, se junta outra vez com o roteirista Caryl Ferey (que escreveu o romance policial Zulu adaptado para o cinema por ele e Jérôme que também o dirigiu em 2013) e juntos adaptam essa história real em um filme de ação e suspense: KOMPROMAT: O Dossiê Russo, que foi destaque na programação do Festival Varilux de Cinema Francês, 2022.



Para isso, conta com o ator francês Gilles Lellouche (BAC Nord: Sob Pressão,2020), que está excelente no papel, e a atriz polonesa Joanna Kulig (Guerra Fria, 2018), ganhadora do Prêmio do Cinema Europeu de melhor atriz em 2018. Ela faz muito bem uma esposa infeliz, casada com um herói de guerra, que se permite viver uma aventura fora do casamento. Por se passar na Rússia e ter atores russos, ucraniano e lituano como coadjuvantes, não comprometem a trama, dando uma boa verossimilhança.


O filme faz uma dura crítica aos franceses, acusando-os de serem “galinhas”, ou seja, covardes, diante das situações diplomáticas com medo de gerar conflitos e quebras de acordo nos negócios da França. Como é uma película francesa, estão no lugar de fala, francês criticando francês. O que faz o nosso herói ter que fugir da injustiça russa e da burocracia francesa.

Mathieu (Gilles Lellouche) é um diretor da Aliança Francesa em Irkutsk - cidade da Sibéria ao norte da Rússia - onde tem florestas e bastante neve, além de uma sociedade que cultiva valores extremamente conservadores, como a caça de animais silvestres e preconceito à homossexualidade. E é para neste cenário bucólico que ele, a esposa e uma filha de dez anos vão morar. Sua esposa, insatisfeita com a cidade tão fria, acaba congelando seu coração e deixa de amar o marido que vive para o trabalho e para filhotinha.


O fato de ser uma história real nos faz aceitar certas situações romanceadas mais facilmente. Jérôme Salle utiliza também o recurso do flashback para dar mais consistência ao suspense. Porém, seu objetivo, como ele mesmo declarou é: “Espero passar com esse filme como funciona a ideologia do governo russo nos dias de hoje”.

Acredito ser muita pretensão do diretor belga, todavia uma coisa é certa: com o advento da tecnologia onde existem vários filtros no audiovisual que colocam pessoas falando e atuando sem serem elas, o total “Fake News”, nos mostra uma real ameaça que tem que ser combatida com rigor para que não ocorra, pois pode realmente cancelar qualquer pessoa do mundo. É a morte em vida.