NAZINHA - OLHAI POR NÓS



A INTIMIDADE DA FÉ DIANTE DOS PERCALÇOS DA VIDA


por Karina Kiss

O documentário de Belisário Franca (Amazônia Eterna, 2012) intitulado carinhosamente como Nazinha - Olhai por Nós está longe de ser um ato religioso, mas sim uma leitura sobre piedade e justiça. Logo de início, na abertura vemos uma multidão em êxtase durante a festa da padroeira paraense "Nazinha", que transmite a sensação de que o documentário terá uma narrativa experimental, utilizando a fé como abordagem forte, onde acompanhamos relatos diários dos encarcerados em paralelo aos preparativos para a chegada do indulto.



O longa explicita de modo simples o cotidiano do sistema penitenciário do Pará, acompanhando ora a comunidade feminina, ora a masculina. A história, que não fica presa apenas ao drama convencional, transcorre de maneira sutil e nada entediante, as mazelas sociais, além das hierarquias e diversas camadas existentes na sociedade. Se de um lado temos como agente narrativo o carcereiro totalmente humanizados e com valores éticos distintos que a levam (a delegada, inclusive) a adotar por vezes, a postura de matrona de tantas presidiárias, por outro lado os depoimentos coletados junto aos criminosos demonstra um clichê estereotipado no filme: todos são vítimas, seja da sociedade ou do sistema.


Um dos questionamentos levantados pelos personagens reais do filme é sobre o porquê da ordem divina os fez serem esquecidos. Por isso o título "Nazinha", que se refere à Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do estado do Pará, se faz tão presente.



A fé da comunidade paraense está ligada por devotos, cidadãos de respeito, culpados ou não. É no círio, a peregrinação famosa, que os detentos encontram a oportunidade de soltura, seja da cadeia, seja dos próprios pensamentos.


A captação de imagens discorre entre locais deploráveis como que se buscando estimular a piedade dos especuladores e os olhares sinuosos de um preso ou outro que assume, sem vergonha alguma, que "só morrendo pararia de cometer os mesmos atos", estimulando o desgosto de quem assiste.


A busca pela verdade e justiça tem dois lados, quer queiramos aceitar ou não. Burocracia, preconceitos, sociedade patriarcal, tudo endossa um sistema penitenciário que poderia ser como muitos outros, passíveis de mais criminalidade; porém na comunidade do Pará o Sistema Carcerário é claramente um simulado de uma sociedade civilizada: plantio, oficinas de costura, escolas e todo tipo de assistência financiada pelo cidadão "de bem" que prefere limpar a cidade dos ratos que a cercam, mesmo se esses forem - muitas vezes - inocentes, manipulando um sistema em busca de benefício próprio.


O desfecho é considerável e factual, bem embalado com uma trilha sonora que exemplifica o barulho exaustivo que emana de tantas almas, um pedido de atenção e ao mesmo tempo de esquecimento.


Em poucas palavras, varremos o chão para deixar um ato de fé brilhar ao passar, mas empurramos o lixo que nos incomoda para debaixo do tapete, para não termos que vê-lo cotidianamente.


CALENDÁRIO DE LANÇAMENTO


29/04 a 05/05

Exibição no Espaço Itaú Frei Caneca - São Paulo, SP

Shopping Frei Caneca, R. Frei Caneca, 569 - Consolação, São Paulo - SP


06/05 - Entra em cartaz no TvoD (NOW, Google Play e iTunes)

06/08 - Estreia no Canal Brasil

Globonews - data a confirmar