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SKINAMARINK: CANÇÃO DE NINAR (Skinamarink)



IDEIA ESTICADA DEMAIS


por Antônio de Freitas


A evolução da tecnologia e as plataformas de mídia proporcionaram aos artistas novatos a chance de se projetarem no mercado com suas obras. O Youtube tem servido de vitrine para todo tipo de arte visual e, sem o controle das empresas de mídia, os novos autores podem divulgar suas experimentações que avançam em todos os tipos de gêneros, lançando novos diretores/autores a posições de criadores de obras maiores. E assim é Skinamarink – Canção de Ninar (Kyle Edward Ball, 2022), o resultado do sucesso de um curta-metragem de quase meia hora que causou certa sensação no Youtube.

Seguindo os passos de David F. Sandberg (Shazam!, 2019), que chamou atenção no Youtube com um curta-metragem de terror e o transformou em um longa-metragem muito divertido, Kyle Edward Ball marcou presença com sua obra onde uma criança acorda no meio da noite e procura pela mãe na escuridão da casa. Uma obra que faz parte do subgênero que já foi batizado de "terror analógico", curtas que se originaram por volta de 2010 e se utilizam de uma estética retrô que lhes dá uma aparência de vídeo de baixa resolução em obras que exploram sensações auditivas e visuais em histórias enigmáticas. Trata-se de um “filho” do casamento do estilo found footage e do que foi chamado de Pós-terror. Do primeiro herdou a aparência de obra não profissional com enquadramentos pouco estudados e movimentos nervosos de câmera na mão. Do segundo, o uso pesado de atmosfera e simbolismos, convidando o espectador a preencher “lacunas” deixadas pelo autor e, portanto, tornando-se um “coautor” da obra.

Esta onda de filmes é anunciada como uma grande novidade, mas não passa de reciclagem do estilo de filmes de terror e suspense que foram deixados de lado em prol de sustos fáceis e cenas explícitas de violência com sangue voando para todo lado. Existe o lado bom de voltar a confiar na imaginação do espectador que vai povoar a escuridão com seus próprios medos e, ao interpretar os enigmas em formas de linguagem visual e sonora, vai transformar o filme em uma obra única e pessoal.

O curta-metragem Heck (Kyle Edward Ball, 2020) explora os medos atávicos infantis e apresenta imagens envoltas na escuridão com poucos detalhes da casa vazia, sendo vistos embalados por sons diegéticos; músicas antigas misturadas a sons naturais de uma casa, como rangidos de portas e passadas. Como toda pessoa tem essa memória de acontecimentos passados, a imersão na obra é automática e muito eficaz. A sensação é de angústia e antecipação de que algo ruim vai acontecer. Sentimentos que povoaram a mente de espectadores que viram as cenas da procura da menina desaparecida e o seu balão largado (uma indicação de sua morte) em M, o Vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang, 1931) ou a paranoia da protagonista de Sangue de Pantera (Jacques Tourneur, 1942).


O efeito positivo dessa pequena obra levou à criação desse longa-metragem Skinamarink que, ao contrário dos dois antigos filmes citados, não usou estas cenas para criar momentos de tensão dentro de um conjunto de momentos diferentes que formam uma “escada”, conduzindo a um clímax. O diretor apenas engordou e esticou seu curta-metragem de sequência única. Agora são duas crianças que acordam no meio da noite, zanzam pela casa procurando pelo pai e descobrem que portas e janelas desapareceram. Daí somos apresentados a cenas longas de cantos de paredes, objetos jogados com alguns detalhes estranhos em belas e tétricas imagens, que são verdadeiras obras de arte com muitos filtros para parecerem imagens fora de foco ou estragadas pela baixa resolução e estática de TV analógica. A sensação de claustrofobia é imediata, mas o tédio também, porque a experiência torna-se repetitiva e, em pouco tempo, o espectador pode ficar enjoado de tanto olhar para cantos de paredes e escutar rangidos de portas e assoalhos de madeira.


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