HOMENAGEADOS

Os sinônimos de Ruth de Souza

por Joel Zito Araújo*

 

Talento, elegância e pioneirismo são três palavras que poderiam ser sinônimos de Ruth de Souza. O seu talento será revelado no início dos anos quarenta, a partir do encontro com o grande líder negro Abdias do Nascimento, criador do TEN - Teatro Experimental do Negro. Sob a direção de Abdias, em maio de 1945, ela foi a estrela do primeiro elenco negro que se apresentou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, estreando a adaptação da peça O Imperador Jones de Eugene O’Neill e, simultaneamente, lançando o TEN.

Nos anos cinquenta, por sua atuação no filme Sinhá Moça (1953), ela concorreu ao grande prêmio Leão de Ouro do Festival de Veneza, disputando com nomes gigantescos como Katharine Hepburn (quatro vezes vencedora do Oscar), Lili Palmer e Michele Morgan.

E assim ela foi também a primeira atriz brasileira de cinema a ser indicada para um prêmio internacional desta magnitude. A partir daí, ela interpretará uma grande diversidade de papéis no teatro, no cinema e na televisão, atravessando décadas. Em 2005 receberá o kikito de melhor atriz pela sua atuação em meu filme Filhas do Vento, mais uma vez participando de uma atividade pioneira, um filme brasileiro com elenco e diretor negro, em temática contemporânea, que recebeu 8 grandes prêmios no Festival de Gramado.

 

A elegância é outro traço que marca a nossa grande dama negra, como pode ser visto em suas fotos publicadas em revistas históricas, desde a inesquecível Cruzeiro e  Você, voltada para o mundo da TV e do Cinema, onde ela foi também uma de seus colunistas. Na Revista Você, ela escreveu sobre moda, elegância, filmes e sobre o mundo cinematográfico norte-americano, no período de 1956 a 1959, como resultado do período em que passou nos Estados Unidos como bolsista da Fundação Rockfeller. Seguramente, ao fazer isto, ela foi também a primeira mulher negra a escrever regularmente em um periódico de TV e cinema no Brasil.

 

Discrição, determinação e dedicação também poderiam muito bem descrever a nossa querida Ruth de Souza. Sem muito esforço, seguramente encontraremos muitas outras palavras, mas esta rápida introdução não permite resgatar toda a riqueza de sua trajetória e o todo os adjetivos possíveis de serem sinônimos para ela. Mas não podemos nos furtar de encontrar as dificuldades que enfrentou pelos sinônimos negativos que a palavra negro herdou do racismo brasileiro.

 

Embora tenha tido uma carreira ímpar, ela não escapou do destino de 95% dos atores e atrizes negras na TV e no cinema brasileiro.  E nenhum deles parece ter escapado do papel de escravo ou serviçal nos mais de 50 anos de história das telenovelas brasileiras. Mesmo para aqueles que quando chegaram à televisão já tinham um nome solidamente construído no teatro ou no cinema, como Grande Otelo, Milton Gonçalves e Zezé Motta. Esta afirmativa pode ser constatada desde que a telenovela tornou-se um programa diário da TV brasileira, em 1963. Não podemos deixar passar em branco que nos primeiros cinquenta anos da nossa televisão, em dois terços de suas telenovelas não constatamos em nossas pesquisas nenhuma presença de atores e atrizes negras, nem mesmo como atores secundários. Essa falta de oportunidades de papéis para a imensa maioria deles, sejam como personagens centrais, secundários, bons ou maus, pode ser melhor entendida quando verificamos que entre os cerca de 400 cineastas em atividade, que conseguiram lançar pelo menos um filme de longa-metragem nas salas de cinema, apenas 9 são negros.

 

Embora Ruth de Souza tenha feito uma carreira excepcional, somente em 2005, depois de mais de sessenta anos de atuação, ela ganharia um prêmio de melhor atriz em um Festival de Cinema no Brasil. Com uma carreira que conta com 32 longas-metragens,  25 peças de teatro e 46 telenovelas e minisséries, a televisão e o cinema nunca celebraram devidamente em prêmios a qualidade de suas atuações. Apesar do seu reconhecimento nacional, a maioria dos papéis em que foi convidada a atuar na TV e no cinema, não escapavam do estigma de representar o negro como subalterno e inferior racialmente. O estigma de ser negra em uma sociedade que valoriza acentuadamente os arianos e o branqueamento,  os personagens oferecidos para os atores e as atrizes negras sempre estiveram limitados pelo estigma de feios e secundários socialmente, e por isto de pouca relevância para a trama. Com poucas e recentes exceções, o protagonismo surgiu para alguns deles como oportunidade em papéis e personagens que representavam a marginalidade e a violência, a exemplo de Assalto ao trem pagador, Cidade de Deus,  Carandirú e Madame Satã.

 

O rosa não é sinônimo só de amor, o branco só de dor, o preto ou negro não devem continuar sendo sinônimos de horror, inferioridade e subalternidade. Especialmente depois de consideramos que com a carreira de uma estrela como Ruth de Souza, e toda a contribuição que ela deu para o teatro e o audiovisual brasileiro, a nova geração de atores e atrizes tem melhores chances de conseguir bons papéis. E seguramente encontrarão novos diretores com cabeças distintas do passado, que possam ir além dos limites impostos por nossos preconceitos, ultrapassando a força e os obstáculos do poderoso e mentiroso mito que somos um exemplo de democracia racial.

Joel Zito Araújo, 26 de julho de 2016.

 

 

* Cineasta, PHD em Comunicação, criador e diretor de Filhas do Vento, A Negação do Brasil, Vista Minha Pele e Raça.

José Mojica Marins

capaz de driblar com maestria as limitações financeiras da produção, utilizando efeitos especiais absolutamente artesanais que em nada ficam a dever em relação a grandes produções internacionais do gênero horror no mesmo período.

Inicialmente desprezado por boa parte da "crítica especializada" naquele momento, Mojica porém, logo passaria a ser saudado e reverenciado como gênio por intelectuais como: Glauber Rocha, Rogério Sganzerla, Carlos Reichenbach e Jairo Ferreira, só pra citar alguns nomes.

E verdade seja dita, não que Mojica de fato precisasse da legitimação artística por parte dos cineastas intelectuais citados pra merecer a alcunha de "gênio", visto que seu estilo é verdadeiramente único e incomparável ao de qualquer outro cineasta brasileiro que o tenha precedido, mas sem dúvida vê-lo sendo assim qualificado pelos "medalhões" do cinema brasileiro daquele período, despertou o interesse de um público normalmente não voltado ao cinema de gênero, em relação à sua obra ainda em construção.

E em caráter de imprescindível homenagem a este genial artesão do cinema brasileiro, recentemente falecido em 19/02 deste ano, o 7º CURTA NEBLINA - festival Latino-Americano de Cinema irá exibir a versão integral de outro clássico absoluto dirigido pelo velho mestre: Ritual dos Sádicos - O Despertar da Besta (1970), filme que esteve censurado por décadas, graças ao tema central nele abordado que, obviamente, representava um tabu absoluto em tempos de regime militar: o consumo de drogas e seus efeitos na psiquê humana.

O filme conta com pequenas e inéditas participações (como atores) de figuras fundamentais ao chamado "Cinema Marginal" brasileiro (Carlos Reichenbach, Jairo Ferreira) e também do cinema-novista, Luís Sérgio Person.

Um artesão em forma de cineasta

 

José Mojica Marins, ou deveria dizer, "Zé do Caixão?" Afinal, é mesmo praticamente impossível separar a figura do diretor/ator de seu mais icônico personagem.

Gênio autodidata, nascido em 1936, em São Paulo (SP), Mojica dá a luz, em 1964, ao célebre personagem que o acompanharia por toda a vida, em seu mais famoso filme, por ele escrito, dirigido e protagonizado: "À Meia-Noite Levarei sua Alma". 

Além de praticamente fundar o gênero horror aqui no Brasil com este filme, Mojica realiza de fato uma verdadeira obra-prima autoral que discute questões como: fé e religião versus ateísmo e materialismo, por meio de uma estética extremamente criativa,

Suzana Amaral

Em homenagem à cineasta Suzana Amaral, falecida no último 25/6 aos 88 anos, faremos uma exibição exclusiva do filme A Hora da Estrela, de 1986, aqui no festival, na página www.cachacafilmes.com/curtaneblina.

A Hora da Estrela, obra máxima da veterana diretora paulista, estará disponível GRATUITAMENTE no dia 27/9 por um período de 24h: da meia-noite de sábado (para domingo) até meia-noite de domingo (pra segunda).

Suzana Amaral - o perfeito encontro entre a radiografia social e o existencialismo à brasileira. 

 

O filme, vencedor de praticamente todos os prêmios no Festival de Brasília realizado naquele mesmo ano (1985), bem como do Urso de Prata de melhor atriz para Marcélia Cartaxo, em 1986, praticamente sintetiza, tanto a visão de mundo de Suzana Amaral (sempre marcada pela crítica social de viés existencialista) como também sua relativamente curta, porém indispensável, filmografia. 

A personagem Macabéa, brilhantemente interpretada por Marcélia Cartaxo, diga-se de passagem, é o mais fiel retrato acerca das aspirações da típica mulher brasileira de origem humilde naquele período. Seus sonhos frustrados pela dura realidade que a aspirante à datilógrafa de origem nordestina encontra logo ao chegar a São Paulo, representam, ainda hoje, uma das mais ricas radiografias sociais já realizadas tanto pela literatura brasileira, ao pensarmos no texto original escrito por Clarice Lispector (1920 - 1977), quanto pelo cinema brasileiro, nesta excelente adaptação dirigida por Suzana Amaral.

 

A perfeita junção entre radiografia social e existencialismo (presente também nos demais filmes realizados pela diretora) Uma Vida em Segredo (2001) e Hotel Atlântico (2009), fazem com que A Hora da Estrela represente, sem sombra de dúvida, a obra-prima da diretora paulista.

O excelente elenco, capitaneado pela pequenina (porém gigante na tela) Marcélia Cartaxo como a já icônica Macabéa, conta ainda com as ótimas participações de José Dumont como "Olímpico de Jesus" (namorado da protagonista) e Tamara Taxman como "Glória"; tornando o prazer de rever este grande filme, ainda mais garantido. 

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