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A ESTRANHA ONDA BRITÂNICA

por Eugênio Doroteu


Tommy (Anson Boon) é um jovem delinquente londrino sequestrado por um casal conservador, Chris (Stephen Graham) e Kathryn (Andrea Riseborough). Preso no porão de uma casa suburbana por uma coleira, o rapaz descobre que não é vítima de um pedido de resgate, e sim de um método brutal de "reabilitação". Determinado a transformar o jovem num "bom menino", o casal o submete a uma excruciante rotina de adestramento humano.



Dirigido pelo cineasta polonês Jan Komasa (Corpus Christi, 2019), o longa teve uma recepção crítica dividida entre a fascinação pela entrega do elenco e o seu cinismo moral. As atuações de Graham, Riseborough e Boon se sobressaem por uma intensidade quase tátil, bem como o uso do humor negro britânico para expor a crueldade do cativeiro.


Houve, claro, quem apontasse certa superficialidade temática no desenvolvimento do roteiro, o desgaste da dinâmica de punição no segundo ato. E isso faz sentido, muito por conta da imposição geográfica da narrativa. Mesmo assim, a produção se sustenta na provocação que oferece, pela condução desconfortável de Komasa.



A força mais direta do filme reside em sua aproximação, acidental ou não, com a Estranha Onda Grega, movimento consagrado por cineastas como Yorgos Lanthimos. O longa transforma o lar num laboratório coercitivo, sempre cozinhando tensões entre os personagens. Tratar a domesticação humana com um tom absurdo, impassível, mimetizando a farsa social característica do cinema grego.



O brasileiro Karim Aïnouz (Madame Satã, 2002) faz, ou tenta fazer, algo parecido no recente Rosebush Pruning.


Tal desengrenagem termina, de certa forma, ressoando na Geração Z, gen-z, aqui como uma alegoria sobre a precarização e o ressentimento intergeracional. A obsessão do casal em "corrigir" Tommy espelha a hipocrisia das elites, ao passo que a apatia do protagonista consigo mesmo encarna a desilusão de uma juventude sem perspectivas.


O desfecho ainda guarda uma transferência (moral?) ao deslocar a catarse do sobrevivente para uma assimilação psicológica, uma interiorização da lógica dos algozes. O cativeiro esgarça para a esfera familiar disfuncional que vira refúgio diante da percepção da civilidade como mera fachada.


"Bom Garoto" chega com exclusividade no Brasil pelo Filmelier+ a partir de 10 de setembro.




O MELHOR DO CINEMA CONTEMPORÁNEO ITALIANO


por Ricardo Corsetti


Em 22/06 foi realizada a Cerimônia de Abertura - para convidados - da 13ª edição do Festival de Cinema Italiano 8 e Meio, no Espaço Petrobrás de Cinema em São Paulo.


O filme escolhido para essa sessão de abertura, foi Fuori, cinebiografia da atriz e escritora italiana Goliarda Sapienza (1924- 1996), indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2025.


Dirigido com muita sensibilidade pelo diretor e roteirista italiano Mario Martone (Nostalgia, 2022), Fuori retrata o período em que a protagonista, interpretada magistralmente por Valeria Golino (Respiro, 2022), esteve presa e também o consequente desdobramento de tal episódio.


Realizado, simultaneamente, em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Brasília entre 25/06 e 01/07, o Festival de Cinema Italiano 8 e Meio nos brinda com o melhor da cinematografia italiana contemporânea, tendo entre seus destaques, por exemplo, Modi - Três Dias na Asa da Loucura, cinebiografia do pintor e escultor italiano Amedeo Modigliani (1884-1920), dirigida pelo astro norte-americano Johnny Depp (Do Inferno, 2001).


Onde assistir em São Paulo e região

Na Grande São Paulo, o festival conta com exibições em locais de destaque:

Espaço Petrobras de Cinema: Programação completa até o dia 1º de julho.



NOTURNOS DE CHOPIN


por Eugênio Doroteu


O polonês Frédéric Chopin (1810–1849) habita o imaginário coletivo como um dos pilares do Romantismo musical do século XIX. Ele transformou a melancolia de seu exílio em Paris em peças para o piano de extrema sensibilidade e inovação técnica, preferindo o ambiente intimista dos salões aristocráticos à grandiosidade dos palcos para encantar o mundo com seu revolucionário uso do rubato.



A tendência das atuais cinebiografias de emoldurar a vida do biografado da vez com frequência esbarra nessa sensação agridoce, entre o desejo do público de ver a complexidade humana na tela e a covardia comercial dos estúdios, que tendem a reduzir vidas inteiras a um checklist linear e hagiográfico para transformar indivíduos falhos em santos intocáveis. Vide o recente Michael (John Logan, 2026).


Pelo menos, em termos de estrutura, Chopin, uma Sonata em Paris, dirigido pelo também polonês Michal Kwiecinski (Servindo Nazistas, 2022), tenta fugir dessa abordagem wikipédica. A narrativa opta pelo recorte mais preciso, quando o músico é diagnosticado com tuberculose e tem que lidar, da maneira dele, com a finitude de sua vida.


O trunfo na manga é que, embora flerte, o filme nunca desliza para o dramalhão choroso. Pelo contrário, ao tomar como inspiração narrativa as vinhetas de A Pior Pessoa do Mundo (Joachin Trier, 2022) , Kwiecinski pulsa no paradoxo da efemeridade de estar vivo e a urgência de criar arte imortal.



Isso é bem ilustrado quando, ao acordar depois de cinco dias acamado, Chopin, interpretado por Eryk Kulm (Boxer, 2025), se ressente por terem sido cinco dias sem pegar no piano. Aproveitando a deixa, sim, o ator teve que aprender a tocar, e a câmera não se esquiva de esgarçar o resultado do treino.


Para os mais velhos, impossível não lembrar de À Noite Sonhamos (A Song to Remember), clássico da Columbia Pictures lançado em 1945 e dirigido por Charles Vidor, indicado a seis Oscars. Mesmo com toda a propaganda nacionalista em tempos de Segunda Guerra Mundial, a trilha sonora de José Iturbi atravessou gerações.


Uma das produções mais caras da cinematografia polonesa (e vê-se na tela toda a plasticidade investida), essa Sonata em Paris pode até passar longe do mesmo efeito. Entretanto, não faz nada feio.



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Também escreve esquetes de humor para internet (algumas no programa que também produziu chamado Dedo Indicador) e contos ainda não publicados. Atualmente está filmando dois curtas de sua autoria.  

 

Formado pela FACHA/RJ em Jornalismo e Publicidade & Propaganda. Fez aulas particulares com Jorge Duran (roteirista de Pixote e Lucio Flávio - Passageiro da Agonia). Fez a Oficina de Roteiro da Rio Filme e inúmeros cursos de roteiro com profissionais da área.

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