O BRASIL PROFUNDO EM REGISTRO CINEMATOGRÁFICO


Ricardo Corsetti


A estreia como diretor ficcional do documentarista Leandro HBL (Favela On Blast, 2008) possui mais méritos do que erros. Mas ainda assim, trata-se evidentemente do trabalho de um jovem diretor ainda em busca de um estilo próprio.

A estrutura narrativa de Rodantes, composta por diversas tramas paralelas que em algum momento acabam por se cruzar, lembra bastante o estilo do consagrado diretor mexicano Alejandro Gonzales Inarritu em Babel (2006), por exemplo. E por isso mesmo, o filme do jovem diretor mineiro peca um pouco ao fazer uso de uma fórmula (a das pequenas tramas paralelas que se cruzam em algum momento) que foi bastante popular no início dos anos 2000, mas que hoje em dia já demonstra claros sinais de esgotamento. Por outro lado, há qualidades incontestáveis em Rodantes, como por exemplo o belo trabalho de fotografia. Embora a linguagem de câmera propriamente dita, às vezes tremida demais, talvez buscando uma certa urgência documental no registro das imagens, me parece um tanto equivocada, visto que prejudica a bela estética até então construída pelo lindo trabalho de iluminação das cenas.


Embora não seja possível eleger propriamente um protagonista dentro da história, a prostituta Tatiane, vivida pela sempre carismática e bela Caroline Abras (Gabriel e a Montanha, 2017), sem dúvida rouba a cena ao longo de praticamente todo o filme.



O jovem Jonathan Well (Divórcio, 2017) por sua vez, apresenta uma atuação apenas morna, prejudicando assim a construção do personagem Odair (jovem cozinheiro homossexual) que a princípio tinha tudo para o grande destaque da trama, mas graças a um desempenho apenas mediano acaba não empolgando ou mesmo comovendo o público, apesar do destino que o aguarda.


O experiente Murilo Grossi (Se Nada Mais Der Certo, 2008), por outro lado, dá um show na construção de seu personagem Aluízio, um asqueroso caminhoneiro psicopata que será, justamente, o responsável pelas agruras que o jovem Odair irá viver ao cruzar seu caminho.

Outro personagem interessante, mas mal aproveitado, é o imigrante haitiano Henry (vivido pelo estreante Félix Smith). Seu cotidiano de exploração em meio ao universo do garimpo poderia ser o grande destaque da trama, caso o desenvolvimento de seu personagem não acabasse tomando um rumo tão confuso no decorrer da história.


Aliás, o encadeamento entre os personagens, ou melhor, entre os diversos pequenos núcleos que compõem a trama de Rodantes ocorre de modo equivocado, confuso e por vezes até um tanto artificial, como por exemplo no desfecho relativamente inconclusivo, onde todos os pequenos núcleos acabam se cruzando, mas de uma forma bastante clichê e até decepcionante.


Entre erros e acertos, porém, Rodantes é extremamente bem vindo enquanto estreia na direção de longas ficcionais do jovem Leandro HBL. E, apesar de suas limitações (narrativas, sobretudo), nos apresenta um belo e ao mesmo tempo cruel registro acerca do "Brasil profundo": um país, em pleno século XXI, ainda permeado por uma brutal desigualdade social (e consequente cruel concentração de renda nas mãos dos velhos "coronéis"1) que, entre outras coisas, permite a insana exploração dos "anjos caídos" presentes nas figuras das muitas Tatianes e Odaires que encontramos por este Brasilzão afora.








UMA NOVA FRANQUIA SE DELINEIA


por Ricardo Corsetti


O segundo filme da franquia (acho que já podemos assim classificá-la) Um Lugar Silencioso - Parte 2 promete repetir o sucesso de precursor em 2018 e, sinceramente, não dá sinais de cansaço, mas sim de muita vitalidade e fôlego para seguir adiante.

O competente e jovem diretor John Krasinski (Jack Ryan, 2019) demonstra muito talento narrativo no sentido de prender a atenção do público com mais um filme ágil e, ao mesmo tempo, consistente em termos de trama.


Embora não seja tão ousado narrativamente quanto o primeiro filme (que era conduzido quase que totalmente sem diálogos e muito mais pelas atitudes e expressões dos personagens), Um Lugar Silencioso - Parte 2 compensa a ausência deste "fator surpresa" com um nível de produção e execução das cenas de ação muito superior ao filme de 2018.

Há também um melhor desenvolvimento psicológico dos personagens coadjuvantes, como por exemplo, o crescimento dentro da trama, apresentado pelo personagem vivido pelo sempre ótimo Cillian Murphy (Café da Manhã em Plutão, 2005).



Apenas para não perder a piada, obviamente, assim como todo e qualquer filme de ficção científica já produzido na terra do Tio Sam, Um Lugar Silencioso - Parte 2 também não responde a pergunta que não quer calar: Por que toda invasão alienígena ao Planeta Terra tem que acontecer, impreterivelmente, nos EUA?

Mantendo a tradição de filmes clássicos do gênero, como Vampiros de Almas (Don Siegel, 1956), por exemplo, a eterna "ameaça externa" ao american way of life (estilo de vida norte-americano) dita o tom de Um Lugar Silencioso - Parte 2.


Além do grande Cillian Murphy, destaque também para a boa atuação da bela Emily Blunt (O Diabo Veste Prada, 2006), vivendo a jovem mãe de família tipicamente norte-americana, na linha do "mexeu com meus filhos, mexeu comigo!"


Um sopro de vida para o aparentemente desgastado gênero Ficção Científica (embora o filme também flerte claramente com o gênero horror) é o que vemos nesta segunda etapa da novíssima franquia que, aliás, deixa tudo obviamente engatilhado no desfecho do presente filme para a - muito provável - terceira parte desta boa saga.







ERRANDO O ARREMESSO À CESTA DO HUMOR


por Ricardo Corsetti


Quase vinte e cinco anos após a realização do já clássico Space Jam (Joe Pytka, 1996), o humor antes ingênuo e bastante espirituoso ao mesmo tempo, praticado pela célebre trupe de personagens da Looney Tunnes demonstra evidentes sinais de cansaço no novo filme Space Jam: Um Novo Legado, realizado no início deste ano.

Com elenco capitaneado pelo astro do basquete/ator Lebron James (Jogada Certa, 2010) interagindo com os eternos ídolos de nossa infância - Pernalonga, Patolino, Gaguinho, Frajola, Piu-Piu, Frangolino, etc - Space Jam é de fato uma megaprodução em termos de efeitos especiais e técnicas de animação, porém, e talvez por isso mesmo, tem sabor de artificialismo e até de uma certa frieza na forma como os personagens (atores) reais interagem com os velhos astros do cartoon.


Além disso, o excesso de correção política na elaboração e condução da trama que levou, por exemplo, à repaginada no figurino da personagem Lola Bunny, visando evitar qualquer apelo à sexualização da coelhinha, bem como a exclusão do divertido Pepe Le Gambá da versão final do filme sob o argumento de que ele "induzia ao assédio sexual" por conta de sua atitude galanteadora, bloqueou ainda mais, qualquer traço de real espontaneidade ao filme.


Aliás, apenas esse episódio isolado do banimento do referido personagem, que na primeira versão de Space Jam deveria aparecer interagindo com a estreante atriz brasileira Greice Santo (também excluída da versão final do filme), por si só, já renderia um filme.


Nem mesmo a quase sempre carismática presença do veterano Don Cheadle (Hotel Ruanda, 2004) como vilão conseguiu me empolgar em relação a uma trama insípida, previsível e repleta de clichês que visam ser "espertos", como por exemplo a citação a cenas e movimentos característicos de Matrix (Wachowski Brothers, 1999), dada a exaustão com que tais citações já foram utilizadas em outros diversos filmes (sobretudo de animação), servem apenas pra cansar ainda mais o espectador ávido por um mínimo sopro de criatividade nessa história.

Salvam-se somente os poucos momentos em que se permite a personagens como Papa-Léguas, Coiote e Diabo da Tasmânia se entregarem ao absoluto nonsense que sempre caracterizou os clássicos desenhos televisivos da turma da Looney Tunnes.


Muita pirotecnia e pouca alma: talvez seja essa a melhor forma de definir e também explicar por que Space Jam: Um Novo Legado é, em grande parte, decepcionante.


Obs: eu, aliás, sou tão pouco inteirado com relação a assuntos relacionados ao universo do basquete que, sinceramente, nem mesmo sabia - antes de ver o filme e pesquisar sobre ele posteriormente - que Lebron James era mesmo um astro do basquete contemporâneo (risos).


É, meus queridos ídolos de infância - Pernalonga, Patolino, Gaguinho e Frangolino - melhor sorte em sua próxima empreitada cinematográfica, ok?




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