RECICLANDO UMA MESMA HISTÓRIA ETERNAMENTE


por Ricardo Corsetti


Desde o final dos anos 90, pelo menos, tem sido comum vermos o veterano astro norte-irlandês Liam Neeson (A Lista de Schindler, 1993) fazendo uma série de filmes de ação quase sempre muito parecidos, às vezes até parecendo que os respectivos roteiristas/diretores simplesmente reciclam uma mesma história, com algumas pequenas alterações, eternamente.

E como já era de se esperar, não é muito diferente o que ocorre no mais recente filme de ação protagonizado por Neeson: Missão Resgate, até porque é bastante evidente que o filme é mais uma livre adaptação do clássico O Salário do Medo (1953), de Henri-Georges Clouzot (1907 - 1977), já readaptado antes, em 1977, como Comboio do Medo por William Friedkin.


Mas isso não significa que Missão Resgate seja necessariamente ruim, pelo contrário. Apesar da previsibilidade e falta de originalidade da trama, o clima de constante tensão - em cenas muito bem dirigidas - compensa, em grande parte, as demais deficiências do filme, como por exemplo alguns furos de roteiro bastante evidentes aos quais evidentemente não vou descrever aqui para não estregar a surpresa dos espectadores pré-natalinos no cinema.


Um elenco de apoio afiado, com destaque para o também veterano Laurence Fishburne (Matrix, 1999) e também para a jovem e bela Amber Midthunder (O Preço da Liberdade, 2016") ajuda em muito no êxito do filme.



Obs: transformar astros veteranos oriundos de um cinema mais autoral em protagonistas tardios não é novidade na história do cinema internacional, lembremos dos casos de Jean-Paul Belmondo (O Magnífico, 1975) e Alain Delon (Expresso Para Bordeaux, 1972) no cinema francês e, sobretudo, de Charles Bronson na franquia Desejo de Matar (1974 a 1994). Mas é fato que, em termos quantitativos, dificilmente alguém bate Liam Neeson no quesito protagonista maduro de filmes de ação.


Voltando a Missão Resgate, está acima da média dos filmes protagonizados por Neeson nos últimos anos, valendo portanto, uma conferida.








CHANCHADA À FRANCESA


por Ricardo Corsetti


Há pelo menos duas décadas, é fato que o cinema francês tem investido muito na produção de comédias de apelo popular (românticas ou de costumes), buscando assim atingir o grande público (inclusive na própria França) e deixar um pouco de lado o estigma de "cinema cabeça" e autoral. Nesse sentido, não causa espanto que até mesmo a tendência à concepção de "franquias" (produções desde o início pensadas para gerarem continuações) também já tenha chegado ao Cinema Francês dos novos tempos mercadológicos.

Que Mal Eu Fiz a Deus? 2, sequência do filme homônimo realizado em 2015, se inscreve perfeitamente nesse filão. Com um humor de apelo popular, mas ao mesmo tempo com piadas e diálogos espirituosos do tipo que dificilmente veríamos numa comédia norte-americana padrão, por exemplo, o novo filme dirigido e co-roteirizado por Philippe de Chauveron (Que Mal Eu Fiz a Deus?, 2015), diverte ao satirizar o choque cultural contemporâneo entre franceses natos e imigrantes das mais diversas origens. Pena que nem sempre acerte no tom ao satirizar tais conflitos (sobretudo verbais), em alguns momentos quase resvalando na xenofobia.


O grande destaque é mesmo o veterano ator Christian Clavier (Se Eu Fosse um Homem, 2020), divertidíssimo ao viver o patriarca de uma típica família de classe média-alta francesa tendo que rever seus medos e preconceitos em relação à presença e entrada dos "temiveis" imigrantes no interior de sua própria família.

Clavier equilibra, com seu talento, as demais atuações quase sempre um tanto exageradas e estereotipadas dos demais atores, humanizando bastante esse personagem que, nas mãos de um ator menos experiente e talentoso, poderia soar como um burguês intragável.


O personagem chinês em eterna paranoia quanto ao fato de achar que os franceses (inclusive seus amigos) o consideram uma ameaça à economia francesa é também bem divertido. Ao passo que o imigrante/refugiado afegão que acaba indo viver na casa do já citado personagem vivido por Christian Clavier, caso melhor desenvolvido e menos estereotipado, poderia render algo bem melhor, mas as situações que ele ali enfrenta beiram mesmo a xenofobia e eurocentrismo explícitos.


Entre erros e acertos, Que Mal Eu Fiz a Deus? 2 diverte e retrata de forma bem-humorada as agruras vividas por imigrantes de origem árabe, chinesa, africana, etc; em território francês. Faltou apenas desenvolver um pouco melhor os personagens e evitar tantos clichês. Mas é realmente válido ver essa busca por um humor de apelo popular por parte do antes cerebral e sisudo cinema francês.




O NÃO TÃO DISCRETO CHARME DA BURGUESIA


por Ricardo Corsetti

Fico realmente feliz ao ver que, aparentemente, o grande Ridley Scott (Alien - O Oitavo Passageiro, 1979) recuperou a velha forma em seu mais recente trabalho Casa Gucci.

Apesar da longa duração (2 horas e 38 minutos), o filme não chega a cansar em nenhum momento, graças ao indiscutível talento narrativo de Mr. Scott e também a um senso de humor bem peculiar, quase pastelão (mas sem excessos) que percorre toda a trama.

A saga da lendária família italiana, criadora de um autêntico império no ramo da moda, revela porém, aquilo que, no fundo, qualquer pessoa razoavelmente inteligente e bem informada já sabe: não se constrói um império sem que os envolvidos em sua construção, em algum momento sujem as mãos, os pés e tudo o mais, no decorrer dessa escalada rumo ao "topo".


O elenco super talentoso, onde inclusive Lady Gaga está muito bem (ao contrário do que vimos em sua estreia como protagonista em Nasce Uma Estrela, 2018), sem sombra de dúvida colabora para o êxito do filme. Jared Leto (Réquiem Para Um Sonho, 2000) também merece destaque, pois está divertidíssimo (apesar de exagerar um pouco no tom cômico em alguns momentos) na pele do filho paspalho de Aldo Gucci (Al Pacino). E, claro, o sempre aristocrático Jeremy Irons (O Reverso da Fortuna, 1990) também está ótimo como o patriarca supremo desta autêntica dinastia toscana.



Talvez a atuação menos inspirada seja justamente a do protagonista Maurizio Gucci, vivido pelo "falso galã" Adam Driver (O Homem Que Matou Dom Quixote, 2019), mas é possível que o ator tenha optado por esse tom mais "morno" de atuação, justamente buscando retratar a timidez e a personalidade aparentemente contida de Maurizio, em oposição a alguns de seus espalhafatosos familiares como o tio Aldo Gucci, impagavelmente interpretado por Al Pacino (O Advogado do Diabo, 1997).

Em termos técnicos, sobretudo no que se refere à direção de arte (cenografia e figurinos), me parece até meio óbvio que Casa Gucci dispensa maiores comentários nesse sentido, sendo um autêntico deslumbre em termos estéticos, retratando muito bem, inclusive, a reconstituição de época de meados dos anos 70 e início dos 80, época em que se passa boa parte da trama.


Quando se pensa na extensa e já clássica obra cinematográfica de Ridley Scott, Casa Gucci pode até não ser necessariamente um de seus melhores trabalhos, mas, sem dúvida, já é bem superior a qualquer coisa que diretores mais jovens e badalados pela crítica e público contemporâneo, como um Christopher Nolan (Tenet, 2020) ou Wes Anderson (A Crônica Francesa, 2021) nos apresentaram nos últimos anos.




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