Retrospectiva: RELATOS SELVAGENS (Relatos Salvages)


O cinema além do doce de leite e alfajor

A fórmula já é antiga: reunir uma sequência de curtas-metragens que tenham um ponto em comum e assim fazer um longa. Um dos casos mais recentes foi Rio eu te Amo (2013), que apesar de grandes nomes à frente e por trás das câmeras, comete o erro mais frequente neste tipo de obra: a irregularidade entre cada história.

Em Relatos Selvagens, o resultado é positivo. O roteirista e diretor Damián Szifrón - em seu terceiro filme - conta seis histórias sobre personagens que estão em um ponto de virada de suas vidas. Estão lá: um grupo de pessoas que tiveram contato com um mesmo rapaz que busca vingança, uma garçonete que tem a possibilidade de se vingar de seu algoz, dois motoristas que tem uma desavença no meio da estrada, um especialista em explosivos que se revolta com o sistema de multas de sua cidade, um homem que tenta comprar um funcionário para que assuma a culpa por um acidente e uma mulher que se descobre traída no dia de seu casamento.


Com um elenco afinadíssimo - incluindo grandes nomes do cinema argentino como Ricardo Darín e Erica Rivas -, o diretor extrai o que tem de melhor, seja na direção ou no roteiro. Escritos de forma enxuta e eficaz, os episódios conseguem - em poucos minutos e personagens - contextualizar cada situação e apresentar seus dramas. Essa eficácia é reforçada pela montagem, que Szifrón assina com Pablo Barbieri Carrera e dá bastante ritmo ao longa.

Relatos Selvagens conseguiu um feito raro: ter sucesso de crítica e público. Também é surpreendente que um roteiro escrito, dirigido e montado pela mesma pessoa resulte num filme tão bom e enxuto. Diretores e roteiristas normalmente não são indicados para a montagem por terem apego a elementos dispensáveis ao corte final.


Uma curiosidade é que, apesar de a trilha sonora ser do experiente Gustavo Santaolalla (21 Gramas e Babel), no episódio em que dois motoristas brigam numa estrada, a música incidental é o tema do filme Top Gun - Ases Indomáveis (Tony Scott, 1986).


Relatos Selvagens atingiu a maior bilheteria da história na Argentina e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. É um exemplo de longa-metragem que merece ser visto e faz jus à fama de que não são bons apenas em fazer doce de leite e alfajor.

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