O CONTO DOS CONTOS (I Racconti dei Racconti)


O risco de tentar agradar a todos os públicos

Normalmente, o público divide-se entre os que amam histórias fantasiosas e os que odeiam. Em O Conto dos Contos, o diretor italiano Matteo Garrone (Gomorra, 2008) ousa ao fazer um filme grandioso - com elenco de vários países e todo falado em inglês - numa fábula bastante realista (e violenta) com pitadas de fantasia.


Baseado na obra do poeta italiano Giambattista Basile Pentamerone - que inspirou famosas fábulas infantis como Rapunzel e Cinderella - o filme conta três histórias que são intercaladas. Na primeira, uma rainha (a mexicana Salma Hayek) vai às últimas consequências para engravidar. A segunda é sobre um rei (o inglês Toby Jones) que tem como animal de estimação uma pulga gigante e vê-se obrigado a entregar sua filha para um ogro (Guillaume Delaunay). Na terceira história, um rei (o francês Vincent Cassel) dedica sua vida a farras, bebedeiras, orgias sexuas e apaixona-se pela linda voz de uma mulher velha.


Escrito a quatro mãos - o diretor coescreve com Edoardo Albinati, Ugo Chiti (As Idades do Amor, 2011) e Massimo Gaudioso (Reality - A Grande Ilusão, 2012) - é exatamente o ponto fraco de O Conto dos Contos. Cada história é interessante - apesar de todas serem sobre reis e plebeus - mas como diz o mago dos cursos de roteiro Robert McKee, "90% do trabalho de um roteirista é escrever um final interessante", e é aqui que está o problema. As histórias caminham bem, mas aos poucos vão ficando lentas e o final é quase frustrante. Sem contar que quando vemos filmes de histórias paralelas ficamos procurando pontos de ligação pra saber onde elas se encaixam ou se são apenas histórias distintas, e o roteiro também não é bem sucedido neste ponto.


A montagem corta as histórias em momentos interessantes e parte para outra num momento menos atraente ou cujo interesse se perdeu ao quebrar seu clímax indo para outra história.


O grande trunfo do filme é a mescla de excelentes atores - que conta também com John C. Reily (Tudo por um Furo, 2013) e Shirley Henderson (Anna Karenina, 2012) numa maquiagem impressionante - com uma produção impecável. A reconstituição de época é impressionante, com fotografia belíssima, direção de arte meticulosa e figurinos precisos. Os efeitos especiais também não deixam a desejar e a trilha-sonora de Alexandre Desplat (A Garota Dinamarquesa, 2015) é ótima, ajudando ao contar as histórias e manter o clima medieval.

A opção por uma fábula adulta, fria e com boa dose de violência mesclada com pitadas de fantasia é um risco assumido pelo diretor, uma vez que o público que não é afeito a fantasia pode se sentir incomodado (como é o meu caso) e o público fã dessas histórias vai sentir falta de uma dose maior destes elementos.

Entre erros e acertos, é extremamente válido assistir a essa obra - completamente diferente dos outros filmes contemporâneos do diretor - com ares de superprodução e um cuidado bem superior aos filmes comerciais.

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