MENINO 23 - Infâncias Perdidas no Brasil


O nazismo mora ao lado

Há mais de 70 anos o nazismo tornou-se assunto tabu na sociedade. E para nós, brasileiros, é como se estivesse muito distante e nada tivesse a ver conosco.

Em Menino 23 - Infâncias Perdidas no Brasil, percebemos que esteve mais perto de nós do que parece. O documentário parte das pesquisas do historiador Sidney de Aguilar Filho, que decidiu investigar uma fazenda em Campina de Monte Alegre - interior de São Paulo - onde foram encontrados tijolos com o símbolo da suástica nazista.


O assunto - tabu na região - foi investigado pelo historiador e por um funcionário da fazenda, e depois de muita procura chegou-se à verdade.

Na década de 30, o Brasil passava por uma política eugenista - por conta do avanço do nazismo e fascismo, e da proximidade do presidente Getúlio Vargas com o governo alemão. É curioso ver documentos que mostram que a Constituição de 1934 possuía um artigo nesses termos.


A família Rocha Miranda - de grande influência política e social - enviou um de seus membros até o orfanato carioca Romão de Mattos Duarte. Lá, ele escolheu 50 meninos negros de maior força física e os ludibriou dizendo que teriam uma vida boa em São Paulo. Levados até a fazenda da família - sob a justificativa de um único tutor - foram escravizados, sendo forçados a trabalhar do amanhecer ao anoitecer, com péssima alimentação, sofrendo castigos, banhos frios e nenhuma remuneração.

Cada um dos meninos era chamado por um número, tal como os judeus nos campos de concentração. O diretor conseguiu entrevistar Aloísio Silva e Argemiro Santos. Ambos sobreviventes da fazenda. O primeiro - falecido pouco tempo após a filmagem - era conhecido como o "23" que dá título ao filme. O segundo ainda está vivo e conta que teve que fugir da fazenda - sob pena de ser executado caso fosse pego - e morar na rua até alistar-se na Marinha.


É curioso ver como cada um lida com o assunto de uma forma diferente. Aloísio carregava muita mágoa e revolta com tudo que aconteceu, e em certo momento agradece por nunca ter encontrado nenhum de seus algozes, porque não teria nenhum pudor em vingar-se. Argemiro lida com o assunto de forma mais amena, fazendo piadas e rindo das situações em que foi submetido.


O filme conta ainda com os depoimentos da família de José Alves de Almeida. Conhecido como 2, era o negro favorito da família Miranda, sendo escolhido para trabalhar dentro da casa e tratado, aparentemente, como filho. O curioso é que os outros dois sobreviventes contam que o "dois" não gostava dos outros meninos negros, colocando-se como se fosse realmente integrante da família de fazendeiros. Morto com pouco mais de 50 anos, sua filha diz que ele morreu na miséria e acreditava que realmente herdaria bens, como qualquer filho da família Miranda.


Dirigido por Belisário Franca - que assina o roteiro com Bianca Lenti - Meninos 23 - Infâncias Perdidas no Brasil é um relato cru e necessária descoberta que precisa ser revelada e conhecida por nós, brasileiros.

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