AQUARIUS


Maniqueísmo de jardim da infância

Kleber Mendonça Filho - diretor de bons curtas-metragens como Recife Frio (2010) e Vinil Verde (2005) - surgiu para a grande mídia com seu primeiro longa de ficção O Som ao Redor (2012). O filme foi muito bem recebido pela crítica, sendo elogiado pela imprensa internacional e bastante premiado.


Dizem que assistir a um filme com muita expectativa costuma ser frustrante, e foi exatamente minha sensação ao assisti-lo: muita fumaça pra pouco fogo. Anos depois, a única coisa que me resta na memória são as cenas em que procura fazer referência a grandes cineastas exatamente para agradar à critica. Algo como naquele comercial que fala sobre "fazer cara de conteúdo".


Agora, o diretor lança seu novo trabalho: Aquarius. Protagonizado pela atriz Sonia Braga (Mamãe Casamenteira, 2013), conta a história de Clara (Braga), uma mulher aposentada que vive num edifício antigo - que dá nome ao filme - e recusa as ofertas milionárias de uma construtora. Todos os vizinhos já se mudaram, e ela passa a ser um problema para os compradores e vendedores.


Com essa premissa básica, o filme procura inserir diversos elementos, como a luta de classes, o direito de continuar morando onde se deseja, a sexualidade na terceira idade, etc. Alguns assuntos são iniciados mas não desenvolvidos, como um jovem que ameaça a protagonista. O grande problema é que os temas são abordados com a profundidade de um pires. Chega a ser risível o momento em que Clara pesquisa na internet e lê sobre os Iluminatis.


De um maniqueísmo primário, há um momento onde Diego, o engenheiro e neto do dono da construtora - interpretado por Humberto Carrão - diz que ela e sua empregada devem ter suado muito na vida, devido à sua pele ser mais morena. Em outro momento, a cunhada de Clara - estereotipada como uma mulher de classe média - diz: "Nós exploramos as empregadas e elas nos roubam".


Por outro lado, a protagonista - que deve ganhar a simpatia do espectador - é uma jornalista bem sucedida e mesmo assim defende os mais humildes. Como na cena em que, após ela falar com os funcionários pobrezinhos da construtora com o maior respeito e atenção, chamando-lhes pelo nome, é abordada por eles, que lhe contam sobre coisas que foram obrigados a fazer. Claro que só o fizeram porque ela é uma pessoa boazinha e humana, dentro do maniqueísmo do filme e daqueles que rezam a cartilha da quadrilha que acaba de ser expurgada do governo, onde - segundo eles - o mundo se divide entre os bonzinhos, pobrezinhos e oprimidos, e os ricos, brancos, heterossexuais, desonestos, racistas e homofóbicos.

Não à toa fizeram aquele papelão durante o Festival de Cannes, numa tentativa de defender a quadrilha que promoveu o maior roubo de uma democracia. Dá pra entender, ao ler o nome Petrobrás - que se tornou a maior máquina de desvios de dinheiro do país - como patrocinadora do filme.


Para piorar, o diretor coloca cenas que beiram ao sexo explícito, como as de sexo oral numa mulher, orgia e de sexo da protagonista - com direito a nu frontal masculino à vontade. Claro que o diretor tem direito de fazer o filme como quiser, mas também deve se submeter à classificação indicativa como todos os outros. E segundo ela, o filme deve ser enquadrado para maiores de 18 anos. Mas como é típico dessa gente que defende a democracia dos ditadores e a honestidade dos corruptos, se colocou de vítima (outra característica deles) para tentar "ganhar no grito" uma classificação indicativa menor. E pra piorar: conseguiu!


Qualquer cineasta que opta por fazer cenas assim é ciente das consequências, e se quer uma classificação mais baixa, opta por cortar tais cenas. Mesmo porque a classificação indicativa não é uma censura, mas sim uma recomendação. Qualquer pai que quer levar seu filho mais novo para assistir a um filme assim, tem pleno direito. Portanto, quem quer ousar - mesmo que apenas pra chamar atenção e posar de "moderninho" - deve aceitar as consequências de seu ato.


Voltando ao filme, outro problema são os diálogos explicativos, onde um personagem vira e diz ao outro coisas que ele sabe, apenas para informar ao público. Mas o filme não tem só defeitos, a história prende o espectador - a menos que este esteja acostumado a assistir apenas a produtos enlatados americanos - e tem atuações irretocáveis, com destaque para o naturalismo da cena em que Clara conversa com seus filhos. Mas se o diretor acerta na direção de atores, erra no tanto de zoom in e zoom out, que são movimentos considerados errados no cinema e que procura justificar colocando em vários momentos o cartaz do filme Barry Lyndon (Stanley Kubrick,1975), que utiliza desses movimentos o tempo todo. Kleber repete aqui a tentativa de agradar à crítica fazendo referências ao cineasta mais cultuado da história.


Como quase sempre acontece com filmes nacionais, a figuração atrapalha muito as cenas. É impressionante como figurante brasileiro tenta chamar atenção. Numa cena em que Clara está num baile de terceira idade conversando com as amigas, é impossível nos ater aos diálogos, uma vez que diversas figurantes se contorcem para não tirarem os olhos da câmera - mesmo estando fora de foco. Uma delas dança de uma lado para o outro, sozinha, chegando ao cúmulo de levantar os braços - numa tentativa de chamar atenção - sempre com os olhos voltados para a câmera. Então colocam um homem pra dançar com ela - provavelmente para fazê-la parar de olhar - mas mesmo assim ela quase vira-se de costas pra ele e continua olhando. Resultado: não faço a mínima ideia do que falaram nesta cena.


Outra polêmica em que o filme se envolveu foi referente à nomeação ao Oscar. O fato de ter sido selecionado para o Festival de Cannes fez com que se achassem "candidatos naturais" ao Oscar. Qualquer pessoa que tenha o mínimo de conhecimento, sabe que os festivais tem características completamente diferentes e sua nomeação não teria a mínima chance de premiação. Mesmo assim, alguns cineastas - que rezam pela mesma cartilha pseudocomunista - retiraram seus filmes de competição apenas porque um dentre os nove jurados é contra as posições políticas do diretor e não gosta de seu filme anterior.


Como já era de se esperar, um filme que utiliza como subtexto o discurso proferido pela turma que se diz "de esquerda" - como se isso ainda existisse - agrada em cheio à crítica, ainda mais após o lamentável episódio do Festival de Cannes. E esta o coloca "nas nuvens".


Como no marketing político, quando falta lastro se abusa de polêmicas, e o diretor também se envolveu numa discussão pública com a Globo Filmes (que coincidência!). Kleber declarou que a distribuidora "adestra o público e faz mal à cultura", e completou dizendo que seu vizinho "faria duzentos mil espectadores com um filme do churrasco de família se fosse distribuído no esquema da Globo Filmes". O diretor-executivo da distribuidora Cadu Rodrigues o desafiou a fazer um filme de sucesso comercial pela empresa. Disse que se atingisse duzentos mil espectadores no primeiro final de semana, a distribuidora não cobraria nada, caso contrário deveria assumir publicamente que como diretor é um bom crítico.

Por ironia do destino, Aquarius é distribuído pela famosa distribuidora, e agora é que quero ver o êxito comercial urrado por Kleber.

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