VIREI UM GATO (Nine Lives)


Socorro! Não estou sentindo nada!

Virei um Gato é um daqueles filmes que a gente assiste sem julgar, para passar o tempo, lembrando das experiências corriqueiras com felinos que cruzaram ou cruzam nossos caminhos nas ruas, casas de amigos, familiares ou mesmo (caso você tenha um de estimação) debaixo do mesmo teto. Estrelado por Kevin Spacey (Elvis e Nixon, 2016), somos apresentados ao milionário Tom Brand, cujo patrimônio megalomaníaco abarca o maior prédio de Manhattan, ações que compram seu status material e anula a afetividade do núcleo familiar. Sim, pode parecer um tema batido – materialismo, valores humanos, pets fofinhos e divertidos –, mas o que o diretor Barry Sonnenfeld (A Família Addams, 1991) traz de interessante aqui é a exposição do "piloto automático" de seu protagonista, que é quebrado no momento em que se vê sem livre arbítrio, encarnado acidentalmente nos pelos de um excêntrico bichano.


Sem muitas reviravoltas, o filme gira em torno de três arcos dramáticos simples: a carência da filha pequena (Malina Weissman) que sente falta do pai; a traição e ambição envolvendo um sócio (Mark Consuelos) dos negócios de Brand; e a esposa Lara (Jennifer Garnner) sendo a "bela, recatada e do lar" que procura reorganizar a vida familiar). Os demais personagens, assim como o elenco principal, não evoluem muito além de seus papéis funcionais. Vale destacar a participação do veterano Christopher Walken (Voando Alto, 2016), que constrói um Felix Perkins interessante, além de sua aparência remeter à sobriedade característica dos gatos, o que demonstra a ótima escolha pro papel.

Fotografado por Karl Walter Lindenlaub (Winter, O Golfinho, 2011), vemos a construção de quadros dinâmicos, com excessivos zooms e cortes abruptos para ilustrar o temperamento ágil e acelerado de Tom Brand. Já sob a perspectiva do gato, há uma visão mais aberta da lente grande angular para incluir o espectador naquele universo doméstico. As cores e a iluminação da casa de Lara são elegantes e modernas, associadas a uma mobília que dialoga com o padrão de requinte daquela família.


A América do Norte tornou pop a cultura dos pets aqui no Brasil. Uma moda que chegou e ficou, principalmente nas classes mais abastadas. O amor, a pureza e a autenticidade sugeridos por Virei um Gato - ainda que abordados de forma cômica no roteiro escrito por Daniel Antoniazzi e Ben Shiffrin - nos mostra que um animal de estimação traz sim, epifanias para a carência dos tempos modernos digitalizados. É a redenção vivida no corpo de um gato que o ser humano aprende a nutrir os sentimentos mais nobres. Só assim ele não precisará pedir mais socorro.


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