CHARLOTE SP


Muita fumaça pra pouco fogo

Alardeado como o primeiro longa-metragem brasileiro filmado inteiramente com telefone celular, Charlote SP tem aí seu único destaque positivo.

Na história, Charlote (Fernanda Coutinho) é uma modelo internacional que volta para São Paulo e reencontra o cineasta Marcelo Scorsésar (Guilherme Leal). A modelo é filha do empresário Rui (Fernão Lacerda), que passa seus dias gastando sua fortuna com modelos e periguetes.


É claro que filmar com um telefone celular causa diversas limitações técnicas, mas elas poderiam ser contornáveis, mesmo sem verba. O problema é que vemos na tela erros graves, como enquadrar o personagem Rui numa janela, em contraluz, sem ter nenhuma luz ou rebatedor pra equilibrar a luz vinda de fora. Se isso deixaria o ator no escuro com as melhores câmeras do mercado, quem dirá com um telefone celular?

A fotografia - assinada pelo diretor Frank Mora com Junae Andreazza e César Tuma - também falha gravemente em outro momento, quando o mesmo personagem joga sinuca e Scorsésar entra em terceiro plano. Obviamente, um telefone não conseguiria colocar todo o ambiente em foco, portanto, o jeito seria fazer planos americanos (na altura dos joelhos) em cada um dos personagens. Em vez disso, a imagem tenta enquadrar todo o ambiente, ficando tudo fora de foco.


A captação de som também tem vários problemas, e em determinados momentos fica clara a sensação de que a equipe é formada apenas pelo casal protagonista e pelo diretor da série Ponto de Virada fazendo todo o resto.

Como diria o saudoso cineasta Carlos Reichenbach - o popular Carlão - o que segura um filme é o ator. Portanto, mesmo com problemas técnicos, o filme seria bem sucedido se tivesse elenco coeso apoiado num roteiro sólido, o que também não acontece. O elenco todo é muito fraco, artificial, teatral. Por exemplo, a protagonista e produtora Fernanda Coutinho tem a mesma expressão facial e tom de voz na cena em que está apaixonada e na cena em que briga com Scorsésar e vai embora.


A atuação de Leal não fica atrás. sua interpretação de cineasta faz com que o público se sinta assistindo a um curta-metragem estudantil. Uma interpretação falsa, caricata e recheada de clichês.


Talvez os problemas de interpretação fossem sanados com uma direção forte e experiente, o que não acontece. O diretor permite que as atuações sejam equivocadas e ainda não escapa de muletas de roteiro do cinema nacional como a voz off e personagem que fala sozinho. A direção é toda quadradinha, tradicional, no sentido ruim da expressão.


E falando em roteiro - assinado por Mora com Alexei Jose -, poderia aproveitar-se da mobilidade do telefone para explorar coisas que uma câmera tradicional e equipe grande não conseguiriam, mas isso também não acontece. Quando tenta apresentar a modelo redescobrindo a capital paulista, utiliza das locações apenas como cenário, não interagindo com lugares como Galeria do Rock, Centro Cultural São Paulo, Parque do Ibirapuera, etc. Poderia ter aproveitado o fato da atriz realmente ter sido modelo e o personagem Scorsésar ser um cineasta iniciante que teve um filme transformado em série de TV - exatamente como aconteceu com o diretor Mora - para fazer um docudrama (mistura de ficção com documentário) - mas até isso se perde.

Além disso, o filme é recheado de frases de efeito, que no teatro poderiam funcionar, mas no cinema soam forçadas. Sendo Mora o roteirista e diretor, terias resultados muito superiores se tivesse tratado os atores - que possuem sérias limitações - como não atores, e deixá-los improvisarem boa parte do tempo.


A montagem - assinada por Mora junto com Matias Lancetti e César Tuma - é equivocada. Lenta, deixa o filme arrastado e não tenta disfarçar os problemas de roteiro, direção e interpretação. Seus 118 minutos parecem 3 horas. Não deixaria o público tão entediado se reduzisse o filme a 80 minutos. Em determinado momento, a protagonista caminha por entre as pessoas do metrô sendo que apenas ela é colorida. Um preciosismo banal e sem nenhum motivo aparente.


A trilha sonora - assinada por Kiko Zambianchi - também é equivocada. Em determinados momentos cai no clichê de tentar explicar o personagem - ou o que ele sente - com suas letras.


A lição que fica é algo que em cinema sempre é dito: o diretor fazer muitas funções - neste caso roteiro, direção, produção e montagem - é um risco quase fatal. Raras vezes isso é bem sucedido, e ainda assim com cineastas muito experientes e acima da média. Faltou a Frank Mora entender que precisava desapegar de determinados pontos do filme para ter um melhor resultado. O principal deles é que, ao assinar roteiro e direção, ele não poderia participar da montagem, para não se prender a pontos desnecessários. E o resultado - se falando apenas de montagem - é um filme com todos os erros possíveis, que poderiam ser amenizados com um montador experiente e neutro.