REDEMOINHO


Difícil, indigesto, porém necessário

Filme de estreia do experiente diretor de TV José Luiz Villamarim (O Canto da Sereia - 2013, e Justiça - 2016), Redemoinho conta a história de Gildo (Júlio Andrade) e Luzimar (Irandhir Santos), dois amigos de infância que há muito tempo não se viam porque o primeiro deixou a cidade de Cataguases (Minas Gerais) e foi morar em São Paulo há vários anos, onde "enricou". O reencontro acontece por acaso, na véspera de Natal, quando Gildo volta à cidade mineira para passar a data comemorativa com sua mãe Marta (Cássia Kis Magro). O desconforto entre eles é nítido, e o personagem de Júlio parece abusar da cerveja no intuito de que ela pudesse diminuir o incômodo, surtindo efeito contrário, uma vez que - como diz o ditado - o álcool libera as verdades encobertas.

Pouco a pouco, o passado vem à tona, segredos são revelados, até entendermos a origem daqueles relacionamentos e desentendimentos.


Talvez por vir da TV - que é um meio que utiliza-se de linguagem mais popular e compreensível a todos - o diretor procurou o caminho inverso, o minimalismo, tanto nos diálogos quanto nos enquadramentos. Através das falas e situações, lentamente somos apresentados àquele universo, tão cheio de dores e segredos. Porém, nem tudo é explicado, deixando subtextos de situações como a subserviência de Marta a seu filho e por que ela nunca mais reviu Luzimar, já que moram na mesma cidade, etc.


Com relação à fotografia, Villamarim convidou Walter Carvalho (Carandiru, 2003), um dos mais renomados fotógrafos brasileiros e antigo parceiro do diretor. Com câmera fixa o filme todo, Villamarim e Walter sabem muito bem onde colocá-la, e talvez este seja o maior mérito do filme. Eles parecem ter completo domínio do que deve ser mostrado e o que deve ficar na imaginação do espectador, pois é tão importante saber o que se deve mostrar quanto o que não se deve. Por outro lado, também optam por foco fixo, e este talvez seja o maior erro do filme. Utilizando-se de lentes com pouca profundidade de campo (apenas pequena parte da imagem fica em foco), de acordo com a movimentação dos atores - em seus vários planos-sequência - eles entram e saem de foco, sem que este seja corrigido. O efeito que se dá - principalmente quando isso acontece no primeiro plano - é da imagem do ator ficar "borrada". Quando isso acontece em segundo ou terceiro plano, o incômodo é suavizado e muitas vezes passa despercebido pelo público médio, porém, quando isso acontece em primeiro plano, a sensação é de que o operador de câmera não tenha habilidade suficiente, o que sabemos não ser o caso, já que a fotografia está nas mãos de um dos maiores expoentes de nosso cinema.

Acredito que essa opção possa afastar o público médio, além do fato de não ser uma narrativa tradicional e poucas ações acontecem. Talvez essa escolha tenha vindo exatamente do fato deles terem ciência de que não é um filme para grande público.


O elenco está impecável, tanto a dupla central Irandhir e Júlio quanto as personagens secundárias, vividas por Dira Paes e Cássia Kis Magro. O filme ainda trás a participação do excelente ator - ainda desconhecido do grande público - Démick Lopes (Serra Pelada, 2014), que interpreta Zunga, amigo dos protagonistas que enlouqueceu após um acontecimento que mudou a vida de todos.


Redemoinho, como dito anteriormente, não é um filme fácil de se assistir e nem é pra grandes plateias, mas é importante que tenhamos filmes assim produzidos em nosso país, pois da mesma forma que precisamos de filmes que "se comuniquem com o público", como o mais recente fenômeno Minha Mãe é uma Peça 2 (César Rodrigues, 2017) - com cerca de nove milhões de ingressos vendidos, até agora - também é importante termos obras pra outro tipo de público, menor e mais exigente, pois o cinema deve ser plural e todos os públicos serem contemplados.

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