FOME DE PODER (The Founder)


Qual a fome da ascensão?

John Lee Hancock (Malévola, 2014) é um diretor de adaptações biográficas e Fome de Poder (The Founder, 2016) é mais um que entra nessa lista juntamente com Desafio do Destino (The Rookie, 2002), O Álamo (The Alamo, 2004), Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009) - filme que rendeu o Oscar de Melhor Atriz para Sandra Bullock (Gravidade, 2013) - e Walt nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks, 2013).


As histórias e personagens para os filmes podem vir de qualquer lugar, sejam reais ou ficcionais, dos jornais, dos vizinhos, amigos, dos romances, das músicas, etc, mas sempre nas criações o diálogo com a vida se estabelece, nem que seja da maneira mais desvirtuada. É interessante ver um artista trabalhar em todos os seus filmes até o momento com histórias verídicas, pois em termos de roteirização dessas histórias se colocam algumas problemáticas, como por exemplo, a curva dramática. Diariamente temos altos e baixos, não somos tão chapados como algumas personagens se apresentam em muitas obras, seguindo um caminho com um traço psicológico simplesmente delineado pelos acontecimentos que virão. No dia a dia somos múltiplos perante as situações, mesmo que não possamos transparecer isso para os outros.


Fome de Poder conta a trajetória de Ray Kroc (Michael Keaton), um vendedor de máquinas de milk-shake que transita pelas lanchonetes dos Estados Unidos oferecendo seu produto aos proprietários desses estabelecimentos. As vendas parecem não acontecer de maneira satisfatória até o momento em que recebe um pedido de seis máquinas. Ele acha que isso possa ser um equívoco de sua secretária e resolve ligar para os proprietários, os irmãos Richard (Nick Offerman) e Maurice (John Carroll Lynch) McDonald. Ali, Ray encontra a oportunidade de negócio que procurava, uma lógica funcional que obtém bons resultados. Está dado o disparador para o desenvolvimento de sua história.

O roteiro mostra a arquitetura das ações de maneira crescente e sem grandes empecilhos que Ray desempenhou para criar a maior rede de restaurantes fast-food do planeta, o McDonald's. E ao mostrar a trajetória de um homem inicialmente e aparentemente batalhador para outro que passa por cima dos outros sem arrependimentos em prol dos próprios interesses e ambições, delineia o espírito capitalista extremo do seu criador e da empresa. Além de contar uma história, é um filme de crítica em uma de suas camadas, mas essa racionalização fica a cargo do espectador em juntar os pontos e relacionar com as práticas do sistema no qual estamos inseridos. Ponto sobre como a personagem é construída na narrativa.


Em termos cinematográficos, segue grande parte de outros filmes bem produzidos que contam apenas tramas e não exploram nada além das potencialidades da linguagem, o que - neste caso - pode até dialogar com as intenções do diretor e do seu tema, a plasticidade de um império alimentício sinistro. A reconstituição da época é um ponto a favor do filme dentre as escolhas de uma direção quase nada inventiva e criativa, nos moldes do entretenimento fácil. O ritmo à partir de certo momento parece ir ao lado oposto do crescente do enredo, ficando um pouco enfadonho.


A atuação de Keaton é uma mistura de todas as esteriotipações de suas atuações juntamente com a caracterização dos americanos de sucesso, um teatro de psicologia materialista envernizada. Há um bom ator, com uma boa personagem em potencial, mas que não deixa marcas de ser alguém para se lembrar. A ambiguidade de sua atuação é um ponto a favor, mas que poderia ser melhor explorada ao trazer mais nuances psicológicas e não apenas expressivas.


Fome de Poder é um filme com uma história pulsante das engrenagens da nossa sociedade, carrega o tema da ambição nas relações. Poderia ser mais visceral ao que se propõe, mas a discussão humana que instaura tem mais sabor do que os lanches do M gigante amarelo.

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