UNA (idem)


A tentativa de entender um ponto de vista


Una é o primeiro longa-metragem dirigido pelo australiano Benedict Andrews. Sua carreira - desde o início dos anos 2000 - se concentra no teatro, onde dirigiu peças de nomes consagrados como Shakespeare, Anton Tchékhov, Jean Genet, Tennessee Williams e contemporâneos como David Harrower, Martin Crimp, Marius von Mayenburg, Caryl Churchill e Sarah Kane.


O roteiro do longa é uma adaptação da peça Blackbird, do escocês David Harrower, assinado pelo próprio dramaturgo. A peça foi escrita em 2005, inspirada pelos crimes do agressor sexual Toby Studebaker, e descreve uma jovem mulher encontrando um homem de meia-idade quinze anos depois de ter sido sexualmente abusada por ele quando tinha doze anos. Em novembro de 2005, Andrews encenou a peça em Berlim, o que já mostra uma relação e maturação com a obra.


Ao retratar Una com 27 anos, uma personagem anos após o envolvimento em um caso de pedofilia, Rooney Mara (Carol, 2015) traz densidade em um papel bem complexo. Não simplesmente abusada quando mais nova, a jovem também se apaixonou pelo seu agressor, envolvendo-se emocionalmente em uma situação que a moldou no decorrer dos anos. A trama não explora a vingança de Una pelo que lhe ocorreu, mas a tentativa de entendimento do abandono de Ray (Ben Mendelsohn) - o vizinho que teve de reformular sua identidade e vida -, agora casado e com 55 anos.

Adaptar uma peça de teatro para o cinema sempre acarreta escolhas, bem feitas, cômodas ou mal realizadas. No caso, para além do dialogismo consequente para a tensão e aprofundamento de um passado e a maior parte do tempo em uma locação, o local de trabalho de Ray, há o uso de flashbacks, recurso sem inovação na narrativa, mas que amarra ao aprofundar características da personagem feminina.


Temas polêmicos sempre mexem com morais e tabus de uma sociedade, e colocar essas questões em andamento nas artes sempre é uma ferramenta para questionar a configuração vigente enquanto tal. Este é um tipo de filme que reverbera em cada um de acordo com o grau de envolvimento com a personagem e o tema proposto. Não é um filme de opiniões massificadas. Com a ascensão cada vez maior e necessária sobre a mulher na sociedade, a obra se coloca para trazer mais perguntas sobre o humano, e não respostas moldadas.


O final em aberto dialoga com a percepção e opinião do público. Sempre é um risco esse tipo de final, mas também ousadia artística de uma proposta construtiva. Em nenhum momento se revela maiores intenções e o desfecho de moral, ficando a cargo do espectador a síntese da experiência e dos caminhos de uma discussão incessante.


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