PERDIDOS EM PARIS (Paris Pieds Nus)


Humor das improbabilidades possíveis


As comédias contemporâneas transitam por suas variações, de algo inteligente ao preconceito explícito de reafirmar ideologias que já deveriam ter sido superadas se o ser humano praticasse a máxima de que as faculdades intelectuais são a nossa diferença em relação aos outros animais. Nessa miscelânea de expor o humor da vida em sua complexidade temática, há os artistas que se preocupam com o poder de comunicação de suas obras, e isso já imensamente louvável.


Perdidos em Paris, novo trabalho da dupla de atores, diretores e roteiristas Fiona Gordon e Dominique Abel (A Fada, 2011) explora a sutileza da comédia cotidiana vinda das situações inesperadas. Não há regras de como deve ser um dia ou determinada situação. Não há um manual de como se deve viver. Há a graça dos sentidos dados para as ações de cada indivíduo, de como se relaciona com seu mundo interior e exterior. Esta maneira de lidar com as improbabilidades possíveis é algo que percorre a filmografia da dupla em trabalhos como A Fada, Rumba (2008) e O Iceberg (2005).


Fiona (Fiona Gordon) é uma bibliotecária de uma pequena cidade canadense que recebe uma carta misteriosa de sua tia distante Martha (Emmanuelle Riva), uma senhora de 93 anos que mora sozinha em Paris. Na carta, ela pede que a sobrinha viaje imediatamente à capital para evitar a internação em um asilo. Sem ter a menor ideia do que está acontecendo e nem mesmo onde a Martha se encontra, Fiona viaja até a cidade e começa a buscar sua tia desaparecida. Nesta trajetória, Fiona conhece Dom (Dominique Abel), um morador de rua que improvisa sua existência em cada situação na qual está inserido. Da junção desses dois desastrados os imprevistos vão se materializando.

O roteiro parte de um conflito simples, a busca pela tia, mas desenvolve com toda sua ironia e riqueza do simples às críticas de uma sociedade atrapalhada em seus contratos sociais. São tantas regras a seguir que abre-se margem para as falhas humanas de cada individualidade. O enredo se constrói como uma ressignificação do humor estético dos mestres desse gênero em sua variações, Buster Keaton (Nossa Hospitalidade, 1923), Max Linder (Sete Anos de Azar, 1921), Charlie Chaplin (Tempos Modernos, 1931) e Jacques Tati (As Aventuras do Sr. Hulot no Trânsito Louco, 1971).


A organicidade das situações e coreografias remetem a um roteiro desenvolvido pela prática da atuação em uma sala de ensaio, e não apenas a transposição das palavras imagéticas de algo finalizado previamente. Cenas de dança e outras circunstâncias reafirmam a veia teatral dos atores e as referências, principalmente a Tati. O trajeto das personagens - aliado às belas imagens dos planos - concretizam a cidade de Paris em sua poesia urbana e daqueles seres com o espaço no qual circulam.


De alguma maneira, o filme traz uma mensagem em seu subtexto - por se tratar do último trabalho de Emmanuelle -, em contraposição ao drama de trabalhos anteriores. A contribuição de uma grande artista com sua imagem em um trabalho na resistência da brutalidade contra a vida e a inteligência. A multiplicidade de situações e visões sobre a vida pode ser inesgotável em sua renovação.


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