CARTAS DA GUERRA (idem)


De um lado, o amor, de outro, a guerra. De um lado, a poesia, de outro, o sangue e a violência. O filme Cartas da Guerra, do cineasta português Ivo M. Ferreira, se nutre desses contrastes o tempo todo.


O que a imagem nos mostra é um acampamento de guerra, ações, confrontos. O personagem António (Miguel Neves), convocado como médico pelo exército português, para atuar na guerra colonial de Angola, cuidando de feridos. Triste e solitário, ele escreve cartas e um romance e tem com um superior hierárquico um ponto de contato intelectual, alimentado por conversas, ao jogo de xadrez. O que mais se vê, no entanto, são soldados vivendo o cotidiano embrutecedor da guerra.


Se as imagens, maravilhosas em preto e branco, nos mostram a guerra, o áudio é pleno de amor e poesia. Lindas cartas de amor apaixonado, poético, se sucedem ao longo do filme. Amo-te em tudo e sempre é uma das coisas mais repetidas nas cartas, que exploram literariamente a ausência da amada, da casa, dos pequenos prazeres da vida. É António escrevendo à sua esposa, a quem ele é fiel e de quem é sinceramente apaixonado. Mas ele está irremediavelmente longe da mulher amada, já grávida, e da filha que ele não poderá ver nascer, nem embalar, para seu desespero. De 1971 a 1973, ele escreve cartas de amor permanentemente, recebe as respostas que a gente não ouve, nem vê. E começa a escrever um romance. É o que o motiva a sobreviver.

O contraste entre as belas mas terríveis imagens da guerra e a pureza de sentimentos do médico, aspirante a escritor, em suas cartas, produz uma espécie de curto-circuito entre a beleza do amor e a violência sem sentido de uma guerra colonial brutal. O impasse entre o desejo pelas coisas simples e cheias de humanidade e o horror do sangue jorrado em vão e da morte sem sentido, tese e antítese a clamar por uma síntese, que não virá.


O que Cartas da Guerra nos mostra é a angustiante espera, a vida que se põe em suspensão e na incerteza. Só o amor para sustentar tal espera. Para além do sentimento, há a força das palavras, essencial para significar a vida e tudo o que acontece. A literatura como elemento de salvação.


Cartas da Guerra, o filme de Ivo Ferreira, baseado na obra de António Lobos Antunes, é um filme de guerra belo, poético, amoroso. Não se dirige a uma racionalidade pacifista, mas às emoções que a guerra cria ou suprime. Mostra o contraste entre a vida de dentro e de fora da guerra, vivido por um ser humano sensível, capaz de colocar em palavras, bem escolhidas e encadeadas, a expressão de sentimentos de uma quadra decisiva da sua existência.


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