O REENCONTRO (Sage Femme)


Densidade e Leveza

O título original significa "parteira", a profissão da personagem, mostrando já com o título um pouco do universo em que está ligado o fio condutor da história: vida.

Uma ligação inesperada de Beatrice (Catherine Deneuve) surpreende Claire (Catherine Frot), que vive uma vida regrada, com horários definidos de forma rígida e sem diversão, tendo como único momento de lazer uma horta, onde conhece o filho de seu vizinho, de tom afável, sutil, carinhoso que vive bem com sua vida.

Claire, tem sua vida virada ao avesso com a volta da mulher impetuosa que abandonou seu falecido pai, e com isso ela tem uma nova visão do mundo.


O filme trata do difícil reencontro das duas mulheres, pois Claire atribui a perda de seu pai a Beatrice. Em meio a isso está o filho de Claire e sua dúvida quanto a sua profissão. A trama tem nuances de drama e é contada de modo natural, fazendo com que o público embarque de forma suave na história, cheia de densidade e emoção.


O roteiro de Martin Provost (Aonde Vai A Noite, 2010) se desenvolve de maneira poética, ao trazer ao mesmo tempo leveza e densidade. De forma suave ele mostra os acontecimentos sem grandes alardes, mas com emoção.


O Reencontro se passa com pessoas comuns, vivendo dramas comuns, mas de forma poética. É possível sentir a tensão no ar e ver um sorriso singelo dado com tristeza, isso também se dá pela excelente atuação de Deneuve e Frot.


A história se passa em Paris, mas não a cidade charmosa que costumam apresentar, e sim uma cidade com lugares e profissões comuns, trazendo a capital para mais perto do espectador.


É um reencontro, e como a maioria deles, inesperado. Na iminência de acontecer algo indesejado, devido a mágoas passadas.

De forma surpreendente, ao mostrar um motivo aparentemente banal para uma separação tão repentina, o roteiro torna a história humana, crível.


As emoções estão ali, na vida cotidiana dos personagens, em suas ações, no ar, mas sutis.

O filme é denso mas não é pesado, é leve mas não a ponto de se esquecer ao final da sessão. Consegue o equilíbrio certo para fazer o público refletir, fluindo de maneira sutil e forte ao mesmo tempo, assim como num parto natural - mostrado em algumas cenas do filme - em que a parteira tem que ser sutil para o bebê que está vindo ao mundo e forte para a mãe, para poder ajudá-la nesse momento tão único.


Há uma linguagem muito rica de simbolismos, o “além-texto”, não somente de gestos, olhares e silêncios, e sim coisas que representam momentos diferentes, como um anel, que simboliza sentimentos tão diversos, ora de raiva, ora de carinho, uma ponte, um caminhão e um barco, que pontua dois momentos importantes na história.


Numa leitura mais superficial, parece que a discussão maior é sobre mágoa e perdão. Porém, numa observação mais aprofundada, percebe-se que o nascimento, a vida e a morte são o grande fio condutor dessa história.


O público pode esperar um filme sobre reencontros, dramas e mágoas não resolvidas. E uma esperança de uma vida mais suave, sem tantas amarras, sem tantos medos, com mais emoção, com mais vida, permeia o filme.


À primeira vista pode parecer um filme comum, porque são pessoas e lugares do cotidiano, mas o que existe neste roteiro é a história além da história, que está sob o ângulo da sutileza das emoções, mostrado com profundidade.


Densidade e leveza, emoções contidas, desejos escondidos, solidão e a procura por novos caminhos são algumas das questões dos personagens que procuram um novo olhar em emoções antigas, numa revisão de velhos ressentimentos, na busca de novos horizontes.

Um filme que te pega pela mão e te leva, e quando menos se espera você está diante de uma paisagem totalmente desconhecida, descortinando velhos questionamentos, aprendendo novas atitudes, vivendo novas emoções.


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