EL AMPARO (idem)


Um filme sobre pessoas

Muito se discute a respeito do que é possível ser representado. Quando se trata de violência, alguns diretores escancaram o sangue e fazem questão de ressaltar o horror. Outros já preferem se utilizar de cenas não violentas para contar suas histórias. Este é o caso de El Amparo, primeiro longa dirigido por Rober Calzadilla.


O filme é uma ficção inspirada no massacre de Amparo ocorrido em 1988 - na fronteira da Venezuela com a Colômbia - onde um grupo de pescadores foram mortos pelo exército sob o pretexto de serem guerrilheiros e estarem a caminho das refinarias de petróleo para explodi-las. Dois destes pescadores, Pinilla (Vicente Quintero) e Chumba (Giovanni García), conseguiram escapar nadando pelos afluentes do rio Arauca, mas sofreram perseguições do governo e lutaram para provar que não eram guerrilheiros.


Para mostrar o modo de vida da comunidade ribeirinha, seus costumes, o diretor de fotografia Michell Rivas - neste que é também o seu primeiro longa - dá ênfase às pessoas e suas relações familiares. As expressões em close mostram o que sentem, o sofrimento, tristeza, ansiedade e, muitas vezes, medo.

É uma história com viés político que expõe a resistência de um povo formado por pescadores frente às pressões de políticos, promotores e pessoas economicamente influentes interessadas em legitimar o massacre.


O enfoque é social, humano e não há preocupação com o aparato técnico.

A lâmpada da delegacia está queimada e a cena acontece no breu por uma estética documental, onde o conteúdo se sobressai à forma e nos mostra um mundo real, aquele em que vivemos, sem maquiagem.


Nesta vertente, explicita-se também muito a respeito do papel da imprensa partidária, que só divulga a versão oficial dos acontecimentos.


As interpretações de Vicente Quintero (estreante em longa) e Giovanni García (A família, 2017) merecem destaque. Eles passam grande parte do filme presos em uma cela, em um espaço físico limitado, e conseguem entreter o espectador com suas intensas atuações.


El Amparo não mostra o massacre ou qualquer corpo ensanguentado. Ou seja, o mais importante do filme não é explicitado em imagens, é uma elipse, uma ausência. E, apesar de um dos sobreviventes estarem sempre reclamando de dor nas pernas, também não se mostra o machucado.


Vencedor dos prêmios de Melhor Filme e Melhor Roteiro na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e do Prêmio do Público no Festival de Biarritz, El Amparo prova que para emocionar o espectador não é necessário mostrar sangue, mas sim pessoas em suas lutas sinceras e legítimas.

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