BOM COMPORTAMENTO (Good Time)


Um herói desajustado

Assalto, socos, sangue, perseguição, trapaças e tudo que um thriller policial tem direito está no filme - dos irmãos Safdie - Bom Comportamento, acompanhando a jornada de um herói do mundo desajustado, aquele em que a moral é de outra ordem.


Connie (Robert Pattinson) e seu irmão Nick (o diretor Ben Safdie) realizam um assalto e na fuga Nick é preso. Esse é o gatilho para a história que retrata os planos e ações de Connie para libertar seu irmão.


Incompatível para os padrões normais da sociedade, as aventuras vão revelando o outro lado da vida na cidade. Apresenta as regras e personagens do submundo na medida em que as sequências se desenvolvem, convidando o espectador a torcer pelo sucesso na empreitada de tirar o irmão da cadeia.


Um detalhe do roteiro insere uma sutil mensagem de valor ético e moral, ainda que representados por personagens desajustados do mundo. Nick é portador de alguma disfunção cognitiva, mas mesmo com sua deficiência não é deixado de lado pelo irmão. Ainda que a atividade não seja nada nobre, Connie o leva para o assalto tratando-o como igual, procurando criar um ambiente em que sinta-se tão corajoso e destemido quanto ele.

Em tempos de preconceitos e segregação, essa particularidade do roteiro traz uma reflexão para os mais sensíveis às questões sociais. Quem seria mais ou menos amoral? Connie - que assalta a sociedade, mas trata o mais frágil como igual - ou a sociedade da ordem e da lei que segrega os menos afortunados pela natureza?


A mensagem não é direta. Não é uma lição de moralismo. É um elemento que perpassa o roteiro. De forma inteligente e delicada, faz das violentas peripécias de quem é afetuoso com o irmão uma contradição que nos faz refletir sobre as experiências de alteridade. A deficiência antes de ser biológica é uma deficiência social.

Como defendia o psicólogo russo Lev Vygotsky (1896-1934), é a sociedade que deve trazer o deficiente para o seio social, se não o fizer, é a sociedade que é deficiente e não o indivíduo.


A câmera opera próximo aos atores em sequências de primeiro plano dando ao espectador a sensação de adentrar ao submundo. Movimentos nervosos de imagem, assim como os personagens que fogem, tramam e tentam sobreviver naquilo que lhes resta de liberdade. A paleta de cores acentua o vermelho reforçando - através da fotografia - esse mergulho em outro mundo. Em sua trajetória, o filme não chega a surpreender – tarefa difícil para tempos em que a realidade concorre com o imaginário da ficção – porém aborda a diversidade onde menos se espera. No bruto, no violento, mas não menos humano e frugal.



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