O PACTO DE ADRIANA (El Pacto de Adriana)


Verdades obscuras de uma tia


Em sua estreia como diretora de longas, a chilena Lissete Orozco retrata no documentário O Pacto de Adriana (2017) sua jornada ao encontro da verdade e consequente decepção em relação ao passado da tia favorita, Adriana Rivas, revelando as ligações obscuras da familiar com a polícia secreta do ditador Augusto Pinochet (1915 - 2006).


Inicialmente concebido como um filme para ajudar na defesa de Adriana, uma mulher confiante e assertiva em seus argumentos, as cenas vão gradativamente mostrando - de forma impactante - a transformação emocional da diretora diante da decepção da - antes amada - tia revelar-se uma das mais ferozes agentes da Direção Nacional de Inteligência – DINA – órgão repressor da ditadura chilena.


Acusada de operar em um dos centros de repressão mais cruéis do Chile, protagonizando processos de tortura, Adriana é presa ao chegar no aeroporto da capital chilena em 2007, procedente da Austrália, em viagem de visita aos seus familiares.


As tomadas de cena se iniciam com seu passado familiar e seguem no propósito de auxiliar na defesa, até o momento em que ela obtém liberdade condicional e pouco depois foge de volta para a Austrália. A partir daí - ao contrário das pretensões iniciais - inicia-se uma virada, os fatos e entrevistas vão revelando e implicando cada vez mais a tia, mostrando seu verdadeiro passado.

Atualmente Adriana prossegue vivendo na Austrália sendo alvo de um pedido de extradição para responder legalmente em seu país natal. No todo, é um processo que se torna espinhoso com momentos emblemáticos, cujos planos do rosto de Lissete vão mostrando sua mudança de expressão, rumo ao auge da decepção, em cenas patéticas cuja emoção poucos atores poderiam mimetizar à altura da realidade desse documentário.

O filme utiliza tomadas no Chile e na Austrália, depoimentos, entrevistas, arquivos e matérias de outras fontes, formando um caleidoscópio com qualidade de cenas distintas. Essa mistura não impacta negativamente a continuidade graças às escolhas na montagem, ainda aumenta a percepção de veracidade e auxilia na imersão do espectador no processo de investigação. Um dos pontos altos é o uso de uma declaração pública de Adriana à imprensa - com imagem gravada na Austrália - em que ela reitera sua inocência, porém valida os métodos de tortura para obtenção de informações pelo aparelho do Estado.


O filme faz emergir as tensões que essa e outras contradições protagonizadas por Adriana provocam no interior da família. Refletem nesse microcosmo questões mais amplas das gerações da sociedade chilena, não menos universais e similares ao que ocorreu em outros países que sofreram processos autoritários, incluindo-se o Brasil.


Uma estreia extremamente pessoal em que Lissette Orozco administra o difícil equilíbrio de manter seu papel de sobrinha e cineasta. Ao iniciar a filmagem ela coloca em pauta o tema do propósito de se se fazer um filme, de forma individual e utilitária. À medida em que avança, camada por camada, sua vida pessoal torna-se explicitamente um ato político mais amplo. Vale à pena acompanhar essa transformação.


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