CANASTRA SUJA


A força do cinema contemporâneo brasileiro

Em 2011, o jovem cineasta Caio Sóh surgiu no cenário nacional com o contundente filme Teus Olhos Meus. Todo produzido "na guerrilha" (quando ninguém recebe cachê para participar) infelizmente teve pouca distribuição, mas serviu para mostrar ao mercado o surgimento de um novo talento. Em 2014 veio o lúdico Minutos Atrás - que trazia o cantor Paulinho Moska numa interpretação impecável de um cavalo - e em 2017 o filme Por Trás do Céu, o único trabalho do cineasta que não pude assistir. Agora ele volta às telonas com Canastra Suja e registra definitivamente seu nome como um dos mais promissores e instigantes diretores brasileiros.


Na trama, Batista (Marco Ricca) é um alcoólatra em tratamento que vive numa família desestruturada. Casado com Maria (Adriana Esteves), é pai de Pedro (Pedro Nercessian), Emília (Bianca Bin) e da autista Rita (Cacá Ottoni). Vive em vias de agressão física com seu filho desempregado, sua filha tem um caso amoroso com o patrão - muito incentivado por Maria por conta de sua situação econômica - e de seu casamento só restou a aparência. Com muitas camadas e subtramas, qualquer coisa que se diga além pode diminuir o prazer de quem assistir ao filme.


Além de ter dirigido, Sóh também assina a montagem e o roteiro, este último, o responsável para que o elenco aceitasse fazer o filme abrindo mão do cachê. Todos entraram como coprodutores, uma espécie de sócios do filme. Com diálogos de extrema naturalidade - apoiados numa história ácida e muito bem estruturada - os atores contracenam sob uma câmera na mão quase documental - operada de forma precisa por Azul Serra, diretor de fotografia revelação em nosso cinema -, em longos planos-sequencia, que propiciam que os atores possam se entregar de forma integral à trama, uma vez que as cenas não são picotadas em muitos planos. Este é outro mérito do diretor, que consegue extrair uma das melhores interpretações de Adriana Esteves e certamente a melhor atuação da carreira de Marco Ricca e Bianca Bin. O elenco trás ainda a participação de Emílio Orciollo Netto, que faz uma atuação tão precisa que consegue deixar o público revoltado com seu personagem. O visceral Milhen Cortaz está numa interpretação arrebatadora, provavelmente a melhor de sua extensa filmografia.


A julgar pelas recentes estreias, podemos confiar que o cinema contemporâneo brasileiro mostra força como há tempos não víamos. Obras como Aos Teus Olhos (Carolina Jabor), Berenice Procura (Allan Fiterman) - que estreia dia 28/6 - e Canastra Suja (Caio Sóh) mostram que depois da geração de grandes cineastas como Walter Salles Jr (Central do Brasil, 1998), Fernando Meirelles (Cidade de Deus, 2002) e José Padilha (Tropa de Elite, 2007), temos uma nova geração tão talentosa quanto a anterior, e ainda mais contundente.


Canastra Suja é um filme indigesto - no melhor sentido - pois não é esquecido com a subida dos letreiros. É daqueles raros casos em que ficam em nossa mente durante muitos dias. A cena do karaokê é a mais melancólica vista nos últimos anos em nosso cinema. Um filme autoral de primeira.


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