O CANDIDATO HONESTO 2


Ousado, contundente, atual e muito divertido


Já dizia Tom Jobim (1927 - 1994) que o sucesso no Brasil é ofensa, e neste caso, quase uma agressão, se considerarmos que nenhum outro cineasta conseguiu se comunicar tanto com o público como o roteirista Paulo Cursino e o diretor Roberto Santucci, das franquias Até que a Sorte Nos Separe, De Pernas pro Ar e vários outros filmes que arrastam multidões aos cinemas.


O Candidato Honesto 2 continua a contar a história de João (Leandro Hassum), um político que no passado decidiu só falar a verdade e terminou na cadeira. Agora tem permitida a liberdade ostentando uma tornozeleira eletrônica, e novamente tenta a carreira política com o objetivo de moralizar o país.


O que poderia ser uma comédia boba e rasa consegue ótimas sacadas, cartas intermináveis que Cursino puxa da manga. A começar pela apresentação do protagonista, que inicialmente parece apenas para situar o público que não viu o primeiro filme, mas é justificada brilhantemente como o programa de entrevistas "Roda Livre", numa sátira ao Canal Livre (TV Bandeirantes) e Roda Viva (TV Cultura). Este último tem o hábito de apresentar o histórico do entrevistado ao início de cada programa.


Há também um personagem que satiriza o jornalista Ricardo Boechat (Band News) que comenta de política e, de modo orgânico, coloca o público a par do que está acontecendo na política ficcional do filme.


O ponto principal é que o filme utiliza de acontecimentos recentes da nossa política pra fazer piada, dos discursos incompreensíveis da ex-presidente deposta à fama de vampiro de nosso presidente. Tudo da forma mais irreverente e divertida possível. Como fizeram no recente Os Farofeiros, voltam a satirizar clássicos do cinema e flertar com gêneros diferentes. O vice-presidente Ivan Pires (Cassio Pandolfh) é colocado como um vampiro e todas as suas aparições emulam os clássicos do gênero protagonizados por Boris Karloff (1887 - 1969), Bela Lugosi (1882 - 1956) e Christopher Lee (1922 - 2015), como aparições repentinas, o castelo assombrado e o personagem que caminha flutuando.

O filme ainda justifica o emagrecimento de Hassum com os anos que ficou encarcerado, aproveitando pra citar Cabo do Medo (Martin Scorsese, 1992), esta uma grande contribuição de Santucci. Também satiriza a famosa cena em que Charles Chaplin (1889 - 1977) brinca com o globo terrestre no filme O Grande Ditador (1940).


O Candidato Honesto 2 consegue ser ácido, crítico, atual e muito, muito divertido. Alcança a proeza de ser apartidário, ao satirizar tudo e todos. Como diz Cursino, chutar cachorro morto é fácil, e mais uma vez eles mostram sua ousadia em atacar a cúpula do governo brasileiro.


Humor que se preze não pode se levar a sério, e neste caso, Hassum faz piada de seu próprio emagrecimento e da dupla que fez na TV com o ator e roteirista Március Melhen, com base nas coisas que escuta e lê a seu respeito. Também utiliza-se das críticas que recebe por ser um grande chamador de público - mais uma vez a máxima de Tom Jobim é pertinente - e faz piada com filmes nacionais, onde nada acontece e tem sempre um crítico empolado chamando o diretor de gênio.


É provavelmente o melhor trabalho até agora da dupla considerada como os "Midas" do cinema nacional, o que mostra que - apesar de todo o volume de trabalho em terem que lançar dois ou três filmes por ano - jamais se acomodam e trabalham no "piloto automático", o que não é pouco se considerarmos a quantidade de produções encabeçadas por eles nos últimos anos.


Se sucesso no Brasil é ofensa, o que poderíamos esperar que dissessem dos únicos caras que conseguem colocar blockbuster americano de milhares de dólares no chinelo?

Aliás, este seria um bom tema para a dupla abordar num próximo filme.


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