PODERIA ME PERDOAR? (Can you ever Forgive Me)


Quando o crime pode compensar


Uma escritora de biografias, Lee Israel (Melissa McCarthy), atravessa um período de crise criativa e decide falsificar cartas de celebridades como solução à sua penúria em tempos de vacas magras. Vendendo-as como verdadeiras aos colecionadores e lojistas do mercado de preciosidades de Nova Iorque, Israel passa a pagar suas contas e retomar sua autoestima. Nessa jornada do herói protagonizada por Israel, sua queda iminente ao ser descoberta pelo FBI é antecedida do encontro com o amigo e companheiro das noites regadas à drinks e scotchs, Jack Hock (Richard Grant), que se torna cúmplice, colabora no aumento dos ganhos, mas também é o elemento que acelera a derrocada de ambos.


Poderia me perdoar? é baseado no livro escrito por Israel narrando sua vida de misantropia convicta e paixão por livros e gatos, com essa passagem do crime de falsificação sendo recriada pela diretora Marielle Heller (O Diário de Uma Adolescente, 2015) como eixo central do filme e servindo de suporte aos demais aspectos da vida da personagem.


Conhecida por escrever biografias de celebridades do show business: Tallulah Bankhead, Estee Lauder e Dorothy Kilgallen, Lee Israel chegou a atingir a marca de autora de best-sellers no jornal New York Times. Após o sucesso desses livros não consegue mais emplacar uma nova obra com sua agente literária e passa a ter dificuldades financeiras. Começa a vender e penhorar bens pessoais e livros como forma de enfrentar as despesas. Após vender seu bem mais valioso, uma carta emoldurada escrita pela atriz Katherine Hepburn (1907 - 2003), ela percebe que a remuneração obtida por esse tipo de objetos reveladores da intimidade de personalidades falecidas é altamente recompensador.

Com uma mistura de ganância, desespero e resgate da autoestima, Israel começa uma espiral ascendente de falsificação e vendas de cartas de outras celebridades do mundo cultural até ser descoberta pelo FBI. Israel forjou cerca de 400 cartas de famosos cult como Noel Coward, Fanny Brice e Dorothy Parker. No entanto, uma das frases mais tristes e reveladoras ditas por Israel na cena da sentença proferida pela juíza, nos dá um sentido perturbador quando ela reconhece ter sido durante o crime das falsificações o período em que ela teve mais orgulho do seu trabalho e da sua vida.


De fato, as cenas de Israel com seu parceiro e cúmplice Jack Hock são as mais divertidas e impregnadas de uma beleza contida nas personagens da dupla desajustada, mas feliz, que nos oferecem momentos de reflexão diante do mercado repleto de superficialidades e supérfluos.


Lee Israel foi condenada a cinco anos de liberdade condicional com vigilância e seis meses de prisão domiciliar, com pagamento parcelado dos prejuízos de acordo com suas posses. Em tempos de muitas prisões, sentenças e projetos para tornar as leis mais draconianas, chamo atenção do espectador para conferir como Israel não foi algemada, na prática não frequentou nenhuma cela, e ainda tenha sido apenas intimada a comparecer ao tribunal por um crime FEDERAL sem ter sido conduzida. Com isso ela parou de beber, recuperou-se na profissão com sua autobiografia e resgatou a autoestima. Talvez seja difícil de entender como aquilo aconteceu na realidade com o crime tendo compensado ao malfeitor, ou seria simplesmente uma época de menos truculência e mais educação.



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