O ANJO (El Angel)


Anarco-cinema


Baseado numa surpreendente história real ocorrida em meados dos anos 70, O Anjo - produção argentina dirigida por Luis Ortega (Monobloc, 2005) - é mais uma genuína demonstração de que o pungente cinema argentino contemporâneo veio mesmo pra ficar, esbanjando vitalidade combinada a bons roteiros.


O protagonista vivido pelo estreante Lorenzo Ferro é mesmo apaixonante por conta de seu caráter absolutamente anárquico em relação ao mundo. Ou seja, seu instinto de liberdade e satisfação imediata de seus desejos está acima de tudo. Não há instituição ou moral vigente capaz de o parar. Sobretudo após "seduzir" e convencer o também jovem coadjuvante vivido por Chino Darin (Uma Noite de 12 Anos, 2018) a acompanhá-lo nessa perigosa aventura.


É extremamente bem realizado do ponto de vista técnico, com um trabalho primoroso de direção de arte/cenografia em termos de reconstituição de época e contando também com uma belíssima fotografia. Apesar do evidente talento de Luis Ortega como diretor - no sentido de manter o ritmo ágil e pulsante -, da segunda metade em diante chega a cansar um pouco. Porém, o trágico - e ao mesmo tempo poético final - compensam essa relativa "fraquejada" no meio da trama.

Merece destaque também a presença da veterana atriz argentina Cecilia Roth (Tudo Sobre Minha Mãe, 1999), figura carimbada nos clássicos filmes de Pedro Almodóvar, que, aliás, é coprodutor do filme.


É também digno de nota o fato de que, ao contrário do que normalmente ocorreria num filme norte-americano (ou mesmo brasileiro) médio, não há propriamente um julgamento ou posicionamento acerca do caráter amoral do protagonista, que não mede esforços - no uso da violência, inclusive - pra alcançar seus objetivos.


O maniqueísmo realmente não parece fazer parte do cotidiano vivido por Carlitos, ou mesmo de seu parceiro de crimes/aventuras, segundo o qual "O mundo é dos ladrões e dos artistas. Pois os demais, precisam trabalhar".


É o cinema argentino, mais uma vez, nos brindando com um belo filme, e literalmente, nos dando uma aula sobre como fazer um filme acessível ao grande público, sem que pra isso seja necessário abrir mão da qualidade.