HELLBOY (idem)


Poção mágica mal misturada


Dez anos depois de dois filmes de grande sucesso temos de volta o capetão vermelho para mais uma aventura. Desta vez dirigido pelo competente Neil Marshall que nos entregou um ótimo filme de lobisomens, Cães de Caça (Dog Soldiers, 2002), e o magnífico Abismo do Medo (The Descent, 2005). E ainda dirigiu episódios das aclamadas séries Guerra dos Tronos (Game of Thrones, 2012 e 2014), Westworld (2016) e o ótimo reboot de Perdidos no Espaço (Lost in Space, 2018).


Com essas credenciais parece que seria uma ótima escolha para comandar mais uma aventura do feioso, mas simpático, demônio chifrudo ambientado no universo barroco e onírico criado por Guillermo Del Toro (A Forma da Água, 2017). Sabendo delas o que se esperava era, ao menos, uma produção eficiente. Mas não foi isso que ele entregou.


Em vez de seguir o caminho dos dois sucessos anteriores optaram por mais um reboot. O filme começa com um flashback onde contam a história do embate do Rei Arthur (Mark Stanley) com a poderosíssima e imortal feiticeira Nimue vivida por Milla Jovovich (Resident Evil1, 2, 3, 4...). A cena é mal apresentada, com diálogos explicativos onde Arthur enfrenta uma mal maquiada, mal iluminada, mal enquadrada e erroneamente escolhida Milla que ainda usa uma peruca mequetrefe e, em uma atuação sonolenta, parece estar sem saber o que está fazendo ali. O rei despedaça a feiticeira e manda esconderem as partes do seu corpo em diversos locais do mundo para que não sejam encontrados e ela não consiga voltar nunca mais.

A história salta para os dias atuais e somos apresentados ao novo Hellboy (David Harbour) em plena ação. Ele está no México para salvar um colega da agência de investigação do paranormal da qual faz parte. Logo de cara percebemos o tom do filme: a sequência é apresentada de forma barulhenta, cortes rápidos como nos filmes de Michael Bay (A Primeira Noite de Crime, 2018) e tentando apresentar o máximo de informação possível. Somos bombardeados com uma série de erros que incluem a maquiagem mal desenhada de Hellboy que apresenta uma cara mais adulta e marrenta. Passeia pelo filme com uma cara amarrada como se estivesse com uma eterna cólica intestinal. Muito diferente do bochechudo e simpático Hellboy de Ron Perlman. Está aí a apresentação do tom diferente do filme, Neil Marshall optou por uma pegada mais pesada com ação desenfreada e litros e mais litros de sangue espirrando para todos os lados assim como pedaços de corpos em um espetáculo gore que peca por computação gráfica ruim que chega a ser vergonha alheia com criaturas que lembram aquelas do final dos anos 90.


O filme segue com a apresentação dos personagens e a agência que apenas nos dá saudades do esplêndido visual dos filmes anteriores em um festival de designs ruins. Entre os vilões, temos uma outra feiticeira de nome Baba Yaga, a única criatura digital bem criada e bem realizada do filme, que indica para uma espécie de ogro os locais onde estão o pedaços da famigerada Nimue para que sejam juntados e, assim, ela consiga realizar seus planos de destruir o mundo. Hellboy está com seu dilema de sempre, ele é uma criatura das trevas e fica dividido entre os dois mundos, e tenta decifrar os avisos que recebe para descobrir o que está acontecendo. O que se segue é uma enxurrada de cenas de ação barulhentas e mal cortadas e excesso de tramas e personagens paralelos que não fazem a mínima diferença no desenvolvimento na história.


Tudo no filme soa pretensioso e excessivo em um roteiro que tenta lançar diálogos espirituosos com tiradas de humor negro em cenas confusas perdidas no excesso de ideias mal desenvolvidas ao som de uma trilha-sonora sem personalidade e intrometida. Uma desastrada tentativa de lançar um universo tão rico como o criado por Guillermo Del Toro.


O que temos aqui é um exemplo de como é a arte do cinema. Apesar de intelectuais de terceiro mundo acharem que um filme se faz apenas com roteiro, diretor e atores; a verdade é que cada detalhe pesa. Um filme é um trabalho de equipe onde, como em uma poção mágica, cada ingrediente conta para o resultado geral e cabe ao diretor e ao produtor orquestrarem isso.

O que temos neste filme é uma “gororoba” indigesta, um espetáculo de pancadaria, correria, gritaria, vísceras atiradas para o ar, computação gráfica de quinta, direção de arte sem graça, maquiagem mal desenhada, roteiro confuso e feiticeira com peruca vagabunda que só pode agradar adolescentes que curtem tornados de tubarões e coisas do gênero. Um mega filme ruim que, para meu espanto, ainda lança uma cena final indicando que vai ter continuação. Duvido que haja alguma, pois este filme foi considerado uma verdadeira bomba no mundo inteiro. Vai ser esquecido enquanto a obra de Guillermo Del Toro entrou para a história.


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