ABIGAIL E A CIDADE PROIBIDA (Abigail)


Salada russa querendo parecer hambúrguer


Apesar de ser apresentado na campanha publicitária como uma super produção “hollywoodiana”, Abigail e a Cidade Proibida é um filme russo escrito e dirigido por Aleksandr Boguslavsky (Za Granyu Realnosti, 2017). A intenção de enganar um público viciado em “blockbusters” americanos está clara na omissão dos nomes russos nos cartazes. Mas não é só a distribuição que está querendo fazer isso, o filme é uma tentativa russa de surfar na onda de filmes de ficção científica juvenis que assola o cinema em tsunamis de labirintos, jogos mortais e escolhas forçadas impostas aos adolescentes por sociedades opressoras em futuros pós apocalípticos. Uma distopia cujo equilíbrio é quebrado por uma mocinha arretada e empoderada que já virou um subgênero com regras.


E essa produção segue a cartilha à risca. Temos uma realidade alternativa com cara de anos 30 onde existe uma cidade instalada no meio de gigantescas muralhas que a separam do exterior. O motivo disso é, segundo o governo, uma doença não explicada que se alastrou pelo mundo. Ali os cidadãos sofrem com a mão pesada de uma ditadura e aguentam as frequentes investidas dos inspetores, homens vestidos com roupas estranhas e capacetes que escondem seus rostos cuja função é identificar os moradores que apresentam sinais da tal doença. Basta um exame rápido e a pessoa identificada como doente é levada para local desconhecido e desaparece de circulação. Como todos os personagens típicos desse tipo de distopia, Abigail (Tinatin Dalakishvili) se rebela com essa situação, embarca na busca de respostas para essa situação e, principalmente, para descobrir o que aconteceu com seu pai, que foi levado pelos inspetores. A típica jornada do herói que, na sua busca, é transformado assim como transforma o mundo ao seu redor ao alcançar seus objetivos.

A produção apresenta um visual “steampunk” rico e grandioso que chega a rivalizar com as superproduções americanas de 200 milhões de dólares com um orçamento em torno de 10 milhões. Direção de arte, figurino e fotografia extremamente competentes não conseguem esconder um roteiro confuso com personagens e informações de roteiro que entram e saem da trama sem muita explicação. O diretor não soube lidar com o universo rico em detalhes que criou, se perde na geografia da história e muitas vezes não consegue fazer o espectador se localizar e entender o que está acontecendo. Um exemplo é o tal poder da protagonista do qual se fala muito no terceiro ato e terminamos o filme sem saber do que se trata. Em várias cenas não consegue resolver, em roteiro e na direção, cenas de ação ou conflito que parecem desprovidas de lógica ou são resolvidas com informações que aparecem do nada. Os efeitos especiais são bonitos e bem feitos com exceção de uma fadinha idiota em uma computação gráfica vagabunda que aparece sem necessidade nenhuma, estando ali apenas para ser uma gracinha que não se casa com a realidade proposta e só baixa o nível técnico.


A proposta deste filme se parece com as cópias baratas de filmes americanos feitas na Itália em um período que vai do fim da década de 70 até o início da década de 90. Ali, os produtores italianos chegavam a trocar os nomes de todo mundo para pseudônimos em inglês. Tudo isso na tentativa de entrar no mercado internacional com produtos travestidos de produções americanas chegando ao cúmulo de fazer falsas continuações de filmes de sucesso. Queriam copiar o fenômeno do “Western Spaghetti” que, na década de 60, conseguiu um estrondoso sucesso mundial ao enfrentar Hollywood em um de seus gêneros mais caros, o filme de cowboy. Mas a grande diferença é que ali foi introduzido um novo olhar sobre esse gênero apresentando anti-heróis diferentes dos bons mocinhos americanos e introduzindo uma linguagem visual e sonora modernizada e ousada para a época. Assim produziram verdadeiros clássicos que chegaram a influenciar os filmes americanos e se tornar uma referência cultural de peso no mundo inteiro.


Pena que aqui temos uma produção pretensiosa no seu intento de copiar uma produção ‘hollywoodiana”. E é realmente interessante apenas quando se nota uma pegada diferente, russa mesmo, em algum detalhe visual ou quesito da história. Deveriam se tocar com a bobagem que fizeram e apresentar produções com uma verdadeira personalidade russa e, com certeza, chamariam atenção com isso. Os espanhóis, coreanos e japoneses conseguiram imprimir suas marcas nos gêneros com produções cheias de originalidade e assim poderiam fazer os russos.

O pior deixo para o final. O filme é dublado em inglês. Uma verdadeira tragédia que arruína as cenas com um inglês estranhíssimo.


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