ENGLAND IS MINE


Já adianto que England is Mine é chato de doer do começo ao fim, tem problemas sérios de estrutura dramática e entrega menos até do que prometia. Arrisque apenas se você for fã de Morrissey ou conhece o mínimo da história do The Smiths. Deve haver ainda uma meia dúzia no planeta.


O filme foi feito por e para iniciados e dá uma banana para o espectador que não conhece ou não está interessado naquele universo. Para piorar, como se trata de uma biografia não autorizada, não há uma única música do grupo e nem do cantor. Se não curtir, passe longe.


Aviso dado, sigamos em frente: assisti duas vezes seguidas. Apesar dos problemas, respeito quem se mantém fiel a uma proposta e a leva até o fim. E também porque a trilha sonora e as citações poéticas são muito boas. Nunca é demais ouvir Out in the Street das Shangri-las - do grupo eu teria utilizado I Can Never Go Home Anymore que para mim sempre foi influência clara para There is light that Never Goes Out, mas como a perfeita Lonely Planet Boy do New York Dolls está lá, com verso roubado e tudo, então perdoo – sem falar em várias preciosidades da música pop inglesa dos 60 e 70 que fogem por completo do canon beatle-stones e seus satélites. Uma delícia.

O roteiro captou bem a essência do biografado e a transformou em um filme fechado, mas também delicado e contemplativo. De fato a timidez "criminosamente vulgar" do protagonista está lá e há momentos em que chega a dar exaspero. Uma espécie de Holden Caufield em seu deslocamento juvenil, em dias onde nada acontece, onde nada o agrada, nada o apraz, nada o diverte, e tudo o incomoda. Nenhum relacionamento vai pra frente, nenhum emprego dá certo, toda esperança desemboca em frustração, e nem sua sexualidade é definida. Uma cena-chave, porém, define o longa todo. O jovem Morrissey rebate uma amiga dando a entender que já existem clichês suficientes no mundo e ele não precisa ouvir mais um. O filme, de fato, passa ao largo de qualquer clichê ou solução fácil, algo que seu trabalho também sempre evitou. O artista sempre foi um mala, nem precisava dizer, mas parte de seu carisma advém justamente do seu talento em transformar rabugice natural em boa música e encontrar quem goste.


Alguns fãs xaropes reclamaram da ausência de críticas a Manchester, cidade que ele odiava, ou que o encontro com Johnny Marr não foi nada daquilo, mas é besteira. Sua inadequação à cidade é clara e seu encontro com Marr, ao menos na biografia oficial dos Smiths, foi bem aquilo mesmo. Eles apenas ouviram muito mais discos do que o mostrado e ainda demoraram a se acertar.


Faltou emoção à tudo? Talvez tenha faltado mesmo, até na vida real. Mas lembremos que estamos falando da turma que fala sempre com uma batata quente na boca e mal consegue dar um abraço direito. Você verá poucos filmes tão ingleses como este. Se o intitulassem England is Me caberia perfeitamente também.



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