A CONSPIRAÇÃO CONDOR
- há 5 dias
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O BRASIL NÃO É PARA AMADORES
por Ricardo Corsetti
Sem a menor dúvida, em mãos mais experientes, uma trama baseada em fatos reais que envolve uma conspiração internacional para matar dois ex-presidentes da República poderia render um filmaço no estilo thriller político, etc. Porém, graças à visível pouca experiência como diretor de André Sturm (Sonhos Tropicais, 2001), infelizmente, o resultado aqui, deixa a desejar.

A Conspiração Condor (2025) aborda, misturando fatos e personagens reais a detalhes e personagens também fictícios, um dos períodos mais conturbados da história recente de nosso país. O filme apresenta a sempre escusa relação entre o Regime Militar Brasileiro (1964-1984) e os interesses norte-americanos (leia-se, grandes corporações norte-americanas), capazes de conduzir ao quase inacreditável plano (conspiração) para assassinar (simulando acidentes ou causas naturais) dois entre os mais importantes ex-presidentes da historia de nossa República: Juscelino Kubitschek (1902-1976) e João Goulart (1919-1976).
Ah, meu Brasil brasileiro, um país que, conforme já dizia o saudoso maestro Tom Jobim (1927-1994), realmente "não é para amadores". Vale lembrar - inclusive - que, segundo o célebre sociólogo Octavio Ianni (1926-2004), caso o projeto nacional desenvolvimentista empreendido pelos ex-presidentes acima citados, não tivesse sido interrompido, hoje, "o Brasil seria, sem dúvida, um país de Primeiro Mundo".

Enfim, voltando a falar sobre o filme propriamente dito, Conspiração Condor funciona, sobretudo, graças à relevância e atemporalidade do tema abordado, bem como pelo ótimo elenco: Mel Lisboa (Atena, 2025), Marat Descartes (Corpo Presente, 2012), Nilton Bicudo (Os Farofeiros 2, 2023), Zé Carlos Machado (Ação Entre Amigos, 1998), etc.
Porém, a pouca inspiração, digamos assim, de Sturm se reflete até mesmo no tom equivocado de atuação por parte dos ultra experientes Dan Stulbach (Viva Voz, 2003) e María Manoella (A Mulher Invisível, 2009); com o agravante de que os respectivos personagem por eles vividos são fundamentais ao desenvolvimento da história.

Em resumo, não obstante errar na decupagem, utilizando ângulos e planos equivocados, bem como no ritmo do desenvolvimento narrativo, o diretor erra também em termos de direção de atores, em alguns casos.
Há, ainda, equívocos em termos de direção de arte no que se refere à restituição de época e ambientação cênica pois, sinceramente, aquela redação de jornal, com meia dúzia de jornalistas num ambiente tão tranquilo, realmente chega a ser constrangedora.
Destaque para a homenagem a Rubens Ewald Filho (1945-2019), feita de forma discreta e só perceptível para cinéfilos minimamente familiarizados com a história da crítica cinematográfica no Brasil.
É mesmo uma pena que, com uma base tão rica em termos de material para roteiro, aquele que poderia ser, finalmente, o grande thriller político made in Brazil, no fim das contas tendeu apenas um filme bastante mediano.


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