CHOPIN, UMA SONATA EM PARIS (Chopin, Chopin!)

NOTURNOS DE CHOPIN
por Eugênio Doroteu
O polonês Frédéric Chopin (1810–1849) habita o imaginário coletivo como um dos pilares do Romantismo musical do século XIX. Ele transformou a melancolia de seu exílio em Paris em peças para o piano de extrema sensibilidade e inovação técnica, preferindo o ambiente intimista dos salões aristocráticos à grandiosidade dos palcos para encantar o mundo com seu revolucionário uso do rubato.

A tendência das atuais cinebiografias de emoldurar a vida do biografado da vez com frequência esbarra nessa sensação agridoce, entre o desejo do público de ver a complexidade humana na tela e a covardia comercial dos estúdios, que tendem a reduzir vidas inteiras a um checklist linear e hagiográfico para transformar indivíduos falhos em santos intocáveis. Vide o recente Michael (John Logan, 2026).
Pelo menos, em termos de estrutura, Chopin, uma Sonata em Paris, dirigido pelo também polonês Michal Kwiecinski (Servindo Nazistas, 2022), tenta fugir dessa abordagem wikipédica. A narrativa opta pelo recorte mais preciso, quando o músico é diagnosticado com tuberculose e tem que lidar, da maneira dele, com a finitude de sua vida.
O trunfo na manga é que, embora flerte, o filme nunca desliza para o dramalhão choroso. Pelo contrário, ao tomar como inspiração narrativa as vinhetas de A Pior Pessoa do Mundo (Joachin Trier, 2022) , Kwiecinski pulsa no paradoxo da efemeridade de estar vivo e a urgência de criar arte imortal.

Isso é bem ilustrado quando, ao acordar depois de cinco dias acamado, Chopin, interpretado por Eryk Kulm (Boxer, 2025), se ressente por terem sido cinco dias sem pegar no piano. Aproveitando a deixa, sim, o ator teve que aprender a tocar, e a câmera não se esquiva de esgarçar o resultado do treino.
Para os mais velhos, impossível não lembrar de À Noite Sonhamos (A Song to Remember), clássico da Columbia Pictures lançado em 1945 e dirigido por Charles Vidor, indicado a seis Oscars. Mesmo com toda a propaganda nacionalista em tempos de Segunda Guerra Mundial, a trilha sonora de José Iturbi atravessou gerações.
Uma das produções mais caras da cinematografia polonesa (e vê-se na tela toda a plasticidade investida), essa Sonata em Paris pode até passar longe do mesmo efeito. Entretanto, não faz nada feio.


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