DEPOIS DO FOGO (Redbuilding)
- há 5 dias
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BELEZA TRISTE
por Antonio de Freitas
Depois do Fogo (Rebuilding, 2025) é um exemplar de uma vertente que está se formando na cinematografia norte americana. Uma espécie de novo Neorrealismo que quer realizar filmes que mostram um país sem o escapismo e glamour de Hollywood. Um Estados Unidos com sua face crua e, assim, apresentando outra opção além do manjado final feliz com todos os problemas sendo resolvidos.

Quem assiste muitos filmes vai ver que Depois do Fogo tem um certo visual e astral de filmes como os os premiados Minari – Em Busca da Felicidade (Lee Isaac Chung, 2020) e Nomadland: Sobreviver na América (Chloé Zhao, 2020).
Josh O’Connor, que viveu o simpático Padre Jud Duplenticy no sucesso Vivo ou Morto: Um Mistério Knifes Out (Rian Johnson, 2025), está muito bem como o jovem fazendeiro e recém divorciado Dusty que, assim como a maior parte dos fazendeiros da região, acaba de perder tudo em um incêndio gigantesco que destruiu quase tudo no cinturão verde da pequena cidade onde mora. O filme acompanha a tentativa de Dusty para conseguir reconstruir sua vida. E neste, o ator dá um show de interpretação minimalista confiando em um olhar perdido, cabeça baixa e ombros caídos que se levantam assim que surge alguma centelha de esperança para voltar a trabalhar como fez em toda sua vida. O rapaz entrega tudo apenas com o olhar triste repleto de fragilidade e desesperança. Não fica o filme todo fazendo “cara de ostra” como fez a atriz Frances Mc Dormand (Entre Mulheres,2022) no já citado Nomadland.

O diretor Max Walker Silverman (Uma Noite no Lago, 2022) apresenta imagens de cores desbotadas com planos gerais apresentando a região devastada em uma paisagem de horizontes planos gigantescos que diminuem os personagens, que parecem completamente desprovidos de força diante do poder e furor da natureza. Os companheiros de tragédia de Dusty fazem uma turma de magníficos coadjuvantes com atores escolhidos a dedo para dar o tom de realismo melancólico digno dos filmes do Neorrealismo Italiano. Todos se transformam em órfãos de suas terras e acabam tendo que morar em trailers fornecidos pelo governo e são forçados a conhecer de fato seus antigos vizinhos com quem, talvez, alimentavam rusgas por causa de posição de cercas.
Se destacando deste grupo temos a menina Lily LaTorre (O Culto Secreto, 2023) que interpreta Callie-Rose, a filha de Dusty com profissionalismo de adulto e dando surra em muitos atores tarimbados. Sua sinceridade cruel de criança rende belos e tristes momentos.
Apesar de perder o ineditismo para os premiados filmes que já foram citados, Depois do Fogo entrega um sincero painel da luta de uma pessoa que perdeu tudo e não desiste diante das muralhas que estão em frente. No final, talvez, a escolha que faz é reinventar a própria vida confiando no coletivo. Uma história bem contada e dona de uma beleza triste, mas bem sincera.


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