GODZILLA VS KONG (IDEM)



TECNOLOGIA A SERVIÇO DA NOSTALGIA


por Ricardo Corsetti

Para qualquer indivíduo com mais de 40 anos, espectador da lendária "Sessão da Tarde" televisiva, é impossível não lembrar imediatamente daquele King Kong de 1976 - estrelado por Jessica Lange (Cabo do Medo, 1991) - ao assistir agora esta nova encarnação do célebre personagem que povoou nossa imaginação, ao longo de nossa infância.


Por outro, visto que o célebre gorilão não estrela sozinho a megaprodução Godzilla vs Kong, dirigida por Adam Wingard (O Hóspede, 2014), é importante também registrar uma observação acerca de seu igualmente icônico opositor: Godzilla.


Embora o novo filme se trate de uma produção 100% norte-americana, é curioso notarmos que o célebre tiranossauro (Godzilla) aqui retratado esteticamente se assemelha muitíssimo mais ao personagem original criado pela lendária produtora japonesa "Toho", em 1954, do que ao tiranossauro, digamos assim, mais "simpático" que víamos no desenho animado oitentista de produção norte-americana, exibido por aqui na TV aberta dos anos 80.


No entanto, ao contrário do que se poderia imaginar, visto que ambos os personagens símbolos de minha infância são aqui mero produto de toneladas de efeitos de computação gráfica, surpreendentemente eles não soam como algo frio e sem vida, sendo, sobretudo no caso de King Kong, bastante "humanizados" em suas atitudes e caracterizações. Aliás, em meio à disputa territorial por eles evidentemente travada no filme, como bom terceiro mundista que sou, impossível não torcer muito mais pelo guerreiro africano (Kong) que, aliás, apesar de sua evidente ferocidade, é caracterizado também por uma certa ternura, em determinados momentos.



O ponto fraco de Godzilla vs Kong porém, é mesmo a trama um tanto confusa e mal desenvolvida, inclusive pela forma como ambos os personagens são nela simplesmente "jogados", sem quaisquer explicações acerca de suas respectivas origens, por exemplo. Por isso mesmo creio que vai ser difícil conquistar o público jovem de hoje em dia, que obviamente não tem todo o referencial acerca dos clássicos personagens, fazendo com que, quase que inevitavelmente, Godzilla vs Kong seja muito mais visto e apreciado pelo público formado por "tiozões" quarentões, como eu por exemplo.


Para não perder a quase inevitável piada, inclusive, a teoria sobre a "Terra Oca" apresentada ao mesmo tempo como origem do mundo como o conhecemos, bem como também sua salvação, chega a ser, descontada a licença poética permissível num universo ficcional, tão risível quanto a hoje em voga teoria acerca da "Terra plana".


Apesar de suas evidentes deficiências em termos de roteiro, graças ao carisma de seus personagens centrais e também à competente atuação da cientista vivida pela sempre ótima Rebecca Hall (Vicky, Cristina, Barcelona, 2008), o filme diverte e funciona bem dentro do se propõe a ser, ou seja: entretenimento tecnicamente bem realizado e sem maiores compromissos com a lógica ou verossimilhança.